após ter seu avô assassinado pelo bando de lampião, francisca maria de assis viu-se obrigada a sair de sua terra de origem no sertão pernambucano, na altura de serra talhada, deixando para trás seus dez irmãos. aconteceu que se apaixonou por barra lima, cantador-repentista famoso em todo agreste pernambucano, em uma de suas viagens itinerárias, do qual engravidou, gerando sua filha primogênita, hercília maria de lima. barra lima, porém, abandonou francisca maria de assis, que veio se instalar definitivamente com sua filha, sem pai, no agreste pernambucano, na altura de bom jardim. criada apenas com a mãe, hercília maria de lima apaixonou-se por josé peixoto, do qual engravidou, gerando sua filha unigênita, almerinda maria de lima. após um parto complicado, em casa, na sua terra de origem no agreste pernambucano, hercília maria de lima faleceu. josé peixoto, porém, abandonou sua filha, almerinda maria de lima, criada, então, apenas por sua avó, francisca maria de assis. almerinda maria de lima, sem pai, casou-se com josé cabral de lima, puxador de coco e tocador de ganzá, com o qual se instalou em surubim, onde teve dezesseis filhos, dos quais, porém, apenas dez sobreviveram ao parto, todos em casa, cinco homens e cinco mulheres. a terceira filha chamou-se santa, por decisão popular. santa, filha de josé cabral de lima e almerinda maria de lima, casou-se com rivaldo firmino, descendente direto do cacique da tribo fulniô, do município de águas belas, sua terra de origem, na zona da mata pernambucana. em surubim, sua terra de origem, santa, filha de almerinda maria de lima, sem pai, filha de hercília maria de lima, sem pai, filha de francisca maria de assis, cujo avô foi assassinado pelo bando de lampião; gerou e deu à luz três filhos, incluindo seu ultimogênito, rivaldo júnior da silva, herdeiro dos saberes fulniôs, sem bisavô nem tataravô, alimentado pelo coco e pelo repente e rasgado pela bala de lampião.

todos os dias, tenho o costume de conversar com o ipê que aflora amarelo diante dos olhos de minha varanda, enquanto estudo a complexidade de mais um poente. ele, em sua calma arbórea, traduz alguns poemas despetalados, lentamente soprados pelo vento e arrancados frente à seiva que escorre do botão caído. verdade que se mostra, a desfloração já começou a acontecer, e eu impaciente apenas observo o desmantelo do estado amarelo que se formou em minha rua.

curiosamente, temos falado por estes dias sobre as coisas findas, que, segundo o poeta, ficarão de verdade, por serem muito mais que lindas, enfim. não deixam de ser. as coisas findas nos cercam de incertezas diante da ausência e esta alardeia nossos sintomas de saudade, assim como as flores que caem, os anunciam aos galhos. e toda saudade é um pouquinho de amor. é sim. e qualquer amor, ainda assim, como diz rosa, que também tem nome de flor, qualquer amor já é um pouquinho de saúde. trabalhar com saúde, trabalhar com pessoas, cotidianamente, nos exige administrar em nós diversos entendimentos de amor. e semear, tal qual planta florífera, amor além do grão-pólen de nossa paciência e de nosso cuidado.

mas ciclos, assim como as estações nos mostram, são feitos de início e fim. mais um fim, e menos vontade de ver tudo isso ser apenas memória, registro, fotografia passada e guardada na memória de uma rede social. porque assim com o ipê floresce ano após ano, é preciso renovar nossas folhas, levantar outros galhos onde possam pousar novos passarinhos, novas cigarras-cantoras, novos desejos; camuflar em nossos ramos os bichos-pau da insegurança prematura, até que novas flores nos revelem o quanto eles são inúteis diante da fortaleza de nossos troncos.

tudo isso o ipê me fala e certamente vou aceitando compreender, – porque, como poderia eu, na minha insignificância humana, desaforar os conselhos sábios de quem tece toda manhã estas cores que me iludem? este que testemunha a maravilha de se compreender admirável e de se compreender mutável dia após dia, mesmo que no universo não haja nada que esteja distante desta última condição. no caderno está escrito como aquele que fecha nunca é o mesmo daquele que abre a porta, mesmo sendo deste a mesma mão. porém o que permanece não é visível nem mesmo onerável: o que permanece sempre de nós, é o que mantém contínua a importância da renovação.

o sol começa a cair e o ipê que despejava brilho-ouro começa a transluzir a escuridão da noite. eu também me reflito em suas cores noturnas. pouco sei como seremos na nossa próxima floração, mas agradeço o paradoxo estrutural de, mesmo eu achando seis anos uma odisseia ilógica para um homem, ser também seis anos apenas tempo suficiente para seis renovações de flores, como se o tempo curvasse-se em virtude da urgência complexa do real sentido de ser-no-mundo. novas flores virão, voarão, cairão na varanda onde hoje renuncio minhas vaidades e despeço de mais um dia. provavelmente não verei as próximas flores, visto que o tempo é breve, curto e novos ventos virão. mas isso de uma certa forma me conforta – uma certa forma inexplicável – e me revela a essencial necessidade de flore-ser.

contorcem-se vísceras ocas, pedaços de nervos renegados nos açougues, tripas, moelas, misturas de segunda, borras de sangue, coágulos arteriais, veias entupidas de miasmas, desencontros cromossomais, glândulas estranguladas, cálculos, eflúvios de bronquíolos, tosses secas, biles, buchos, bulhas, bálsamos, vilosidades coroides, trabéculas cárneas, distorções epilépticas, hemorragias cognitivas, lágrimas sentimentais.

por que das coisas que conhecemos, é muito difícil selecionar aquelas que não sejam, nem mesmo que pelo tempo abstrato que os cientistas calculam da batida das asas dos beija-flores, um delírio ou uma expansão de pensamento ou mesmo uma vontade reprimida. das coisas que acreditamos, todas elas, diria eu, todas elas juntas são soma e resto de desconfortos mentais, equalizados e ambientados nisso que chamamos de realidade.

ainda assim, eu já consigo coletar amostras de impressões que estacionam na mente e cobrem a percepção. basta ter o pensamento aberto e desconfiança, e basta não crer totalmente. a velha cantiga fulni-ô, o discurso dos líderes, a prosa arcaica dos saraus infantis, nisso tudo há uma ligação para-compreensível que transpassa as palavras, deságua e forma os arroios que escorrem dos meus olhos, mesmo quando não choro.

“à fidelidade dos dias”, não consigo compreender se não espera e esperar a compreensão de minhas ideias, para este projeto inviável de futuro a que todos, como rebanho condenado pelos nossos medos, somos conduzidos. na verdade, são nossas próprias promessas que sustentam a negação diária do reflexo do espelho. dois espelhos paralelamente confrontados, desenham o paradoxo da imagem e do reflexo num vão infinito de sobreposições. chamaria essas imagens de poesia, se não fosse temente o suficiente para abortar as convicções de senso que eu mesmo já formulei.

não são apenas imagens vagas, mas também precatórias. prenuncio o desespero em frases bêbadas e reconheço a necessidade de elucidação, mas, meu amigo, reveja-se no aniquilamento de sua rotina, que destrói e empareda suas janelas e transforma seus pássaros em pesos de porta. meus pais descrevem o translado das órbitas enquanto eu fumo as cinzas da américa perdida. não compreendo, nem me faço compreender. são dias-esmos, são “jamais” recorrentes e perspectivas solitárias. são colares de arame farpado esses desejos que nos renegam.

poderia dançar como nataraja, refazendo esses preceitos cada vez que o fosse necessário. poderia escalar as cores primárias para os dias da semana, de modo que a cromologia das vogais fosse aplicada nos hábitos. poderia sossegar e deitar sobre os braços e os ombros das moças que choram as pétalas dos primeiros úteros. as existências são poucas e esse verso é profecia-eu-homem. acordei hoje com o gosto da náusea do sofrimento alheio, dos rins obstruídos e da esperança que cresce pela boca, como flor de lavanda.

desfiz os nós. comi meus prantos. esqueci o verso que, bêbado, imaginei eu ser o perfeito para iniciar meu soneto. passei e desisti. e não faço mais o colorido com a saudade, porque nem sequer conseguimos selecionar das coisas que conhecemos, o que há de nós, propriamente.

te fiz um poema moderno,
menina,
te fiz um poema abstrato
com sotaque inglês-inglês
te fiz um poema curto
um hai-kai mal intencionado
um poema sofrido,
menino,
um poema cor de céu.

te fiz um poema antigo,
menina,
te fiz um poema assim
sem pretensão
te fiz um poema inútil
uma trova sem rima
um poema descrente,
menino,
um poema como nós.

custei muito tempo a acordar. muito tempo, sim, mais do que percebia a necessidade. custei meses, anos, décadas, a abrir os olhos e conseguir sair do estado de dormência. séculos. custei até os segundos apagados pela órbita dos astros, os minutos adiantados no relógio, as horas engolidas pelos fusos horários, os meses perdidos nos partos prematuros, os anos que não se contaram nas mudanças de calendário, esse tempo todo, indireto, ilógico, vivi esse tempo todo em sono profundo. quando pensei estar acordado, era um sonho. quando pensei voltar a dormir, nunca tinha deixado. quando tive certeza do meu despertar, eu era apenas um lamento sonâmbulo. envelheci dormindo. esgotei a mim mesmo sem nunca estar em vigília. e morri dormindo, um sono pacífico. confortador.

a certa altura da vida, descobre-se
com muita seriedade
as relíquias e os prazeres
do aprendizado do percevejo:

1- que as casas de alpendres curvos são menos infiéis;
2- que o alumínio das latas faz boas sinfonias;
3- que um morcego e uma lamparina são primos distantes;
4- que os estacionamentos de shoppings são lugares muito tristes;
5- e que o amor, ainda raro, se transmite em perdigotos.

os dias de outono são sempre muito pertinentes. mais que isso, as tardes de outono são sempre muito propícias e pertinentes a quem tem os olhos das folhas de angico e os medos das paredes de tijolos vermelhos. estas tardes de outono, como a de hoje. ignorei a fórmula cotidiana de hospital e passei a tarde zanzando pela ufcg, um café, três-quatro-alguns conhecidos amigos. certa fumaça a altura dos olhos. tempo-espera. e a saudade, que já me vem tão apressada nesses dias de outono, a saudade que ainda hei de sentir daqui a dois-três-alguns anos, já sinto e o tempo esperado desperdiçado em não viver tanto tudo isso. e um tanto de desespero sem nexo de partir em breve e uma certa tristeza da chuva que perenemente cai em segredo diante de nossa cara, em cima de nossos pensamentos. e o tempo espaçado já, quase esfumaçado. a sutileza primorosa das coisas que se realizam nestas mesmas tardes de outono, a maneira curiosa que o jardineiro remexe o canteiro, a distinta insignificância das nuances das nuvens vistas através da janela do ônibus, minha risada sem motivo.chico cantando que a saudade dói como um barco, assim tão diretamente pra mim. dói. tudo isso dói e lava os olhos meus também. e me faz reinventar significâncias e necessidades. estas tardes de outono, estes dias, estes outonos todos são como a vida, são como nascer e são como morrer.