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passamentos

“eu nunca vi ninguém nascer nesse hospital, caetano. mas morrendo, vi muitos”, disse o médico ao estagiário que vinha se aproximando. e completou: “morrer e nascer constituem um binômio curioso. à primeira vista, podem ser entendidos como pólos opostos da condição humana, mas não o são. basta um pouco mais de atenção para perceber que, na realidade, são medidas diferentes para o mesmo volume – como a água posta em dois continentes diferentes. por mais que pareçam distintos em sua forma, permanece-se exatamente a mesma matéria. o saldo visual entre uma e outra é o que chamamos de vida. isso, peremptoriamente. a vida é a mudança.”

(com e para mariana revoredo)

 vê-de: a vida é ritual.
vide: o rito é vital.
no rio virtual,
vertemos nossa virtuosa verdade.
evitável?
validável?
e agora, rivaldo?
e agora, revoredo?

agora, o rito é virtual
a vida é ritual
o rio pode ser rival(do)
pode ser revolto,
pode ser. mas nunca é.
nunca é verdade.
porque verdade verte.
e esse é um exercício à transcendência.

todos os meus dias atuais têm sido de resgate das emoções envelhecidas, ignoradas, grossas como os cobertores que revestem as camas a essa época do ano. tem feito bastante frio, como não fazia há pelo menos uns seis invernos, naquele inverno que cheguei aqui. e bem próximo àquele sentimento de descoberta, meu sentimento hoje é o de distanciamento, como quem sabe que partirá em breve e a vida nesta cidade continuará. hoje, dei a andar pelas ruas de campina grande, relembrando em mim mesmo, como quem escreve uma prosa mental, as recordações que os lugares, as pessoas, os hábitos daqui me traziam. aquele vinho cor-de-marrom bebido no evento do açude novo, aquele show no severino cabral, quantas vezes peguei este ônibus atravessando a floriano peixoto, o senhorzinho que me vendeu meu primeiro chapéu e os senhores que riem como quem já nascera velho no calçadão da cardoso vieira. e todas as lembranças primeiras se confundiam em minha mente juntamente às lembranças últimas: seria a última vez que estaria uma manhã sentado despreocupadamente vendo os garotos engraxarem os sapatos, os pombos da praça da bandeira serpentiando entre as pernas, a chuva que fina não caía, ficava suspensa no ar, sendo respirada antes de cair no solo? não distante disso, minha percepção findava à conclusão de que demorei a me encontrar na poesia de campina. e quando o fiz já era tarde demais para perceber tudo e mais ainda para voltar atrás. creio que posso dizer até o momento certo do meu nascimento poético nesta cidade: aquela tarde que descia (ou subia?) a presidente joão pessoa, carregando meu primeiro violão, olhando o céu e tentando descrever no meu interior o espaço que ocupava naquele momento. nesta altura do pensamento, já me encontrava com um amigo recente e de carinho paleozoico, perguntar por ele, agradecer sua presença em mim, como se agradecesse aos tantos que fiz nessa cidade e a esta cidade por me proporcionar fazê-los assim. porque tudo parece novo quando se está próximo de findar. tudo parece imenso. e ainda não contente, desci ao açude velho, chorando as águas que tremulavam com a brisa fina e fria, sorrindo as batidas de asas das garças que flutuavam no ar, sem sair do lugar, porém. não me caibo em minhas próprias nostalgias, tento não me comover ao intenso, mas não posso deixar de acreditar que o raios de sol de hoje foram enviados a mim, para que pudesse ver essa coisas como as vi. foi nesta cidade que vivi medos e gozei a dormência mental do descobrimento do que é a vida – “tarefa dura, mas fascinante” como há escrito e referenciado a suassuna, numa placa que vi hoje em frente ao colégio damas.”redescobre-te, rivaldo”, é como se falassem os espíritos indígenas carregados pela chuva que caiu mais tarde, de águas enegrecidas da borborema, esse novo-quilombo-de-zumbi. foi aqui que vi pessoas morrendo e pessoas nascendo. foi aqui que ouvi árvores cantando (como aquele flamboyant vermelho do ccbs, lembra, naquela tarde?), aqui me embriaguei, viciei, trapaciei, entorpeci, aqui fui espera, aqui fui presente, aqui fui cólera e crise também. enfim, aqui os anos se passaram bem mais rápidos que em qualquer outro lugar do universo e o universo explodiu, estendeu, jurou a mim que chegaria bem no final, mesmo que este final nunca haja.

de todas as vezes que já viajei, e muitas foram as vezes, nessa estrada entre pernambuco e paraíba, rasgando o agreste, subindo à borborema, avistando a campina régia e grande mais ao norte da serra da taquara, eu me abestalho como o céu e as formações nebulosas e solares se desenham únicas e majestosas, limpas, úmidas e claras, sendo emolduradas pela circunferência visual desenhada pela caatinga. hoje mesmo, percorrendo a estrada velha, me perguntava sobre a real existência daquela paisagem, de como ela aparecia sóbria e habitual e ao mesmo tempo questionava minha própria existência e minha necessidade de ver-me ali. olho pra cima. com a respiração sôfrega dos últimos dias de chuvas, um cheiro de mofo molhado e pouca fé, o céu pintava-se, à hora do crepúsculo, com tons de rosa-alaranjado nunca antes vistos pelos meus olhos, espelhando nas montanhas que contornam o planalto uma cor de conforto conhecido, dando adeus e boas-vindas mais uma vez.
não me julguem poeta prolixo. esses dias tô nostalgia só.

a gente acaba por não entender muito bem as circunstâncias que nos fazem crer no que cremos e perceber com mais atenção as coisas que damos nota. hoje lembrei da minha solidão como coisa humana e de minha fé rarefeita, do cheiro de julho que campina exalava em 2011, da dor do silêncio constante e da insegurança que a palavra futuro cobria meus olhos todo dia de manhã. ainda hoje, bem cedo, deitei minha cabeça no sol que nascia trêmulo pela janela do meu quarto, inundava de luz minhas retinas e aquecia as terminações nervosas de minha pele. pensei, nesse instante, como me viria há seis anos se tivesse, naquela época, o dom da premonição. certamente, acordaria atordoado e incrédulo da letargia da visão, renegando-me os atos que eu desenhei em mim nesse tempo, sem poder considerar que conhecer a si mesmo, muitas vezes, é um risco cruel. eu poderia pensar, me vendo como estou, que a vida é previsivelmente mutável, e que nem mesmo a confiança que temos de nossa inexorabilidade está livre desta condição. perderia um tempo enorme tentando me explicar porque admiti ser-me outro tão diferente, mas contentaria, no fim, com o que me foi herdado a cada dia. e, ainda que o sol que me acordou hoje, bem cedo, seja o mesmo do passado, perguntaria a mim, quando a fotografia dos instantes passou a ter outra tonalidade. em que momento preciso as sensações esmaeceram de tal modo que cheguei hoje eu ser daltônico da visão de mundo que tinha, recriando as cores velhas e buscando outras cores, estas mais raras, para que pudesse olhar o novo com mais vigor. tudo isso me pareceu próximo, coeso e necessário, tanto quanto necessário verbalizar-se – ou tentar – por poesia, e estender a compreensão à tangência da palavra. já não me caibo mais nas pretensões do passado, minha solidão parece me compreender, não existe tempo eminente fora de minha própria história e estar-sendo em função disso, parece ainda, a única alternativa.