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Arquivo mensal: abril 2018

trinta e sete novos geólogos voltavam incrédulos e sem explicação para como que as pedras da colina do desterro amanheciam amontoadas, noite após noite, em formações silenciosas e uniformes, desde a volta do inverno na região. no início eram poucas e passavam despercebidas, mas progressivamente as pequenas coleções de pedras se estenderam por toda a colina, contando-se até então milhares, onde a vista alcançasse num dia de bom sol. os cientistas, para não decepcionar o clamor nacional, asseguravam vagamente que tratava-se de um raro fenômeno metereológico e de difícil previsão. o povo, muito mais sabido, não caía numa conversa dessas e tinha por si se tratar do trabalho de um anjo vago, que reservou sua eternidade para brincar com a razão dos homens.

[…]

quatro e quinze da manhã, dona angelita retorna a sua humilde casa, escondida embaixo da imburana, com as mãos vermelhas de pó de pedra. não aprendeu a contar, mas sabia que naquela noite havia movido com sua fé pelo menos uma montanha antes do amanhecer.

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o mar duvidava que o barco avançasse.
– quanto mais se sabe, menos se conhece – ele dizia.
se não fosse a incerteza, nenhum mar existiria.

as notícias que hoje eu desenho em minha mente
me fazem ter dúvidas do homem que sou
o que vejo
e como faço as coisas e os dias
passam
passados entreabertos não recorrem
passados mortos, o sono adiado
e o sufoco como coisa humana
a solidão como coisa viva
e a temperança
que acalma as tardes e disfarça
o desespero geral

não é necessário muito além disso
um café
dois capítulos de um livro inacabante
basta.