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Arquivo mensal: outubro 2017

há quem tanto almeje
se completar em coisas e pessoas,
mas não seriam essas coisas e pessoas
coisas e pessoas a também se completar?

a minha solidão já está conformada
e meu arbítrio vago não passa de um mero pressentimento.
já tenho fomes e vontades e medos.
já sou, mas não sinto completo.

vejo como as pessoas e creio que creio como creem.
danço, apresento-me, faço festa e cortesia.
sorrio como só.
mas só,
o infinito que me ocorre vai além e eu sou pequeno.
não contente, imagino e satisfaço-me.

a promessa do futuro, o amanhã, o ontem, a hora inexistente,
as convenções, o horário certo.
o vazio chega a cortar-me
e se me descubro vítima, parece que padeço.
tenho medo, vergonha e orgulho suficientes para um homem.
mas sinto que preciso de constante afirmação.
se permaneço, sufoco.
se me descubro, humilho.

sempre serei o que sou e o que fui.
e essa é a maior conformação.

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(feito para mim, por m. revoredo) 

Se banha no lago alheio e despe sutilmente o outro de si.
Como quem não quer nada, mergulha.
Dá braçadas e, nelas, cartografa silhuetas fluidas.
Assimila o caminho das águas como quem vê o próprio reflexo.
Nele, encontra sereias e serpentes.
Habituado com suas próprias águas, não se assusta com o já conhecido brado do monstro alheio; e encanta.
Canta o cântico mais bonito que conhece; e acalma.
Torna o desconforto provocado no mergulho irrisório.
É, enfim, senhor das águas.
Lidera caminhos.
Povoa espaços abismos.
Torna habitável o lugar nenhum.
Encoraja sereias e monstros a serem sua melhor versão.
Despreocupado em atender exigências, parte.
E deixa o lago muito mais bonito pela sua passagem.
Não seria tão belo se ficasse.
Cartografia que nada, alquimia!
As águas não são as mesmas, nem o lago.
Que vive a ricochetear a memória,
mneme cantada pelas sereias em coro,
Gratas pelo eterno afago.