tudo é descrença e fé.

há certo tempo não escrevo crônica. e isso por há certo tempo não ter tido mais a velha e insólita necessidade de escrever. hoje ela me tornou, e quem a sente sabe da urgência de transformar sentido em palavra, quando ela vem. no mais distante, sentei, como faço todas as tardes, na varanda de minha rua para extrair o sentido das lições que o sol, as folhas das árvores e os meus medos têm a me passar. e o dia hoje foi de pensar no infinito e na nossa ausência dentro do tempo.

a morte de um jovem colega, sua finitude com relação ao tempo humano, o fim de seu ciclo nesse universo e sua transição ao estado existencial de ser, enfim, tudo isso me comoveu, encheu meus olhos de tristura líquida, escorreu e absorvi. me comoveu muito. na semana passada, pensava como a morte corre simultaneamente à vida, revisitava os últimos suspiros que já ouvi e os partos tristes das crianças que nunca nasceram. tentava, perdido, definir um propósito – como geralmente faço antes de sair de casa para comprar pão, sabendo eu que preciso comprar pão – para justificar esse passo de ciranda que a gente dança sem perceber.

sem motivo descoberto, apenas a transitoriedade consegui enxergar. gritei na porta de deus, questionei o sadismo de nos fazer solitários vigiados por sua hipotética onipresença, descri. mas acabei o temendo e pedi perdão pela provocação – minha catequese lembrou-me que com deus não é assim que se negocia. desisti. passei a intercalar meu pensamento com música, com distorção de rádio, com latido de cão desconhecido.

é difícil acreditar que não podemos conceber todas as não-escolhas embutidas em nossas escolhas, e que a possibilidade de não-ser é sempre maior do que a de ser. o tempo virtual, projetado para depois do fim, marca a angústia daquilo que nunca virá ao conhecimento. talvez seja essa nossa maior dificuldade diante do tempo: perceber-se finito dentro de um referencial infinito e de nunca poder racionalizar a grandeza da infinidade.

mais uma noite tece o escuro, despedaçado entre as nuvens do céu lhano de campina grande. o cigarro acaba, a água ferve. o disco de caetano já toca gonzaguinha. e não menos que humano emborco meus medos para que não continuem olhando para mim. reconhecer-se vulnerável, frágil, instantâneo. e todo esse sentimento corroendo minha poesia diária, cortando a língua de minha mente, deixado as palavras escassas, rarefeitas, diante do indizível. enquanto que o tempo, sentado no ombro de deus, ri da nossa condição pasma, diante disso que pensamos ter sido e estarmos sendo, todos os tempos, num tempo só.

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