uma crônica campinense.

todos os meus dias atuais têm sido de resgate das emoções envelhecidas, ignoradas, grossas como os cobertores que revestem as camas a essa época do ano. tem feito bastante frio, como não fazia há pelo menos uns seis invernos, naquele inverno que cheguei aqui. e bem próximo àquele sentimento de descoberta, meu sentimento hoje é o de distanciamento, como quem sabe que partirá em breve e a vida nesta cidade continuará. hoje, dei a andar pelas ruas de campina grande, relembrando em mim mesmo, como quem escreve uma prosa mental, as recordações que os lugares, as pessoas, os hábitos daqui me traziam. aquele vinho cor-de-marrom bebido no evento do açude novo, aquele show no severino cabral, quantas vezes peguei este ônibus atravessando a floriano peixoto, o senhorzinho que me vendeu meu primeiro chapéu e os senhores que riem como quem já nascera velho no calçadão da cardoso vieira. e todas as lembranças primeiras se confundiam em minha mente juntamente às lembranças últimas: seria a última vez que estaria uma manhã sentado despreocupadamente vendo os garotos engraxarem os sapatos, os pombos da praça da bandeira serpentiando entre as pernas, a chuva que fina não caía, ficava suspensa no ar, sendo respirada antes de cair no solo? não distante disso, minha percepção findava à conclusão de que demorei a me encontrar na poesia de campina. e quando o fiz já era tarde demais para perceber tudo e mais ainda para voltar atrás. creio que posso dizer até o momento certo do meu nascimento poético nesta cidade: aquela tarde que descia (ou subia?) a presidente joão pessoa, carregando meu primeiro violão, olhando o céu e tentando descrever no meu interior o espaço que ocupava naquele momento. nesta altura do pensamento, já me encontrava com um amigo recente e de carinho paleozoico, perguntar por ele, agradecer sua presença em mim, como se agradecesse aos tantos que fiz nessa cidade e a esta cidade por me proporcionar fazê-los assim. porque tudo parece novo quando se está próximo de findar. tudo parece imenso. e ainda não contente, desci ao açude velho, chorando as águas que tremulavam com a brisa fina e fria, sorrindo as batidas de asas das garças que flutuavam no ar, sem sair do lugar, porém. não me caibo em minhas próprias nostalgias, tento não me comover ao intenso, mas não posso deixar de acreditar que o raios de sol de hoje foram enviados a mim, para que pudesse ver essa coisas como as vi. foi nesta cidade que vivi medos e gozei a dormência mental do descobrimento do que é a vida – “tarefa dura, mas fascinante” como há escrito e referenciado a suassuna, numa placa que vi hoje em frente ao colégio damas.”redescobre-te, rivaldo”, é como se falassem os espíritos indígenas carregados pela chuva que caiu mais tarde, de águas enegrecidas da borborema, esse novo-quilombo-de-zumbi. foi aqui que vi pessoas morrendo e pessoas nascendo. foi aqui que ouvi árvores cantando (como aquele flamboyant vermelho do ccbs, lembra, naquela tarde?), aqui me embriaguei, viciei, trapaciei, entorpeci, aqui fui espera, aqui fui presente, aqui fui cólera e crise também. enfim, aqui os anos se passaram bem mais rápidos que em qualquer outro lugar do universo e o universo explodiu, estendeu, jurou a mim que chegaria bem no final, mesmo que este final nunca haja.

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