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Arquivo mensal: novembro 2016

todos os dias, tenho o costume de conversar com o ipê que aflora amarelo diante dos olhos de minha varanda, enquanto estudo a complexidade de mais um poente. ele, em sua calma arbórea, traduz alguns poemas despetalados, lentamente soprados pelo vento e arrancados frente à seiva que escorre do botão caído. verdade que se mostra, a desfloração já começou a acontecer, e eu impaciente apenas observo o desmantelo do estado amarelo que se formou em minha rua.

curiosamente, temos falado por estes dias sobre as coisas findas, que, segundo o poeta, ficarão de verdade, por serem muito mais que lindas, enfim. não deixam de ser. as coisas findas nos cercam de incertezas diante da ausência e esta alardeia nossos sintomas de saudade, assim como as flores que caem, os anunciam aos galhos. e toda saudade é um pouquinho de amor. é sim. e qualquer amor, ainda assim, como diz rosa, que também tem nome de flor, qualquer amor já é um pouquinho de saúde. trabalhar com saúde, trabalhar com pessoas, cotidianamente, nos exige administrar em nós diversos entendimentos de amor. e semear, tal qual planta florífera, amor além do grão-pólen de nossa paciência e de nosso cuidado.

mas ciclos, assim como as estações nos mostram, são feitos de início e fim. mais um fim, e menos vontade de ver tudo isso ser apenas memória, registro, fotografia passada e guardada na memória de uma rede social. porque assim com o ipê floresce ano após ano, é preciso renovar nossas folhas, levantar outros galhos onde possam pousar novos passarinhos, novas cigarras-cantoras, novos desejos; camuflar em nossos ramos os bichos-pau da insegurança prematura, até que novas flores nos revelem o quanto eles são inúteis diante da fortaleza de nossos troncos.

tudo isso o ipê me fala e certamente vou aceitando compreender, – porque, como poderia eu, na minha insignificância humana, desaforar os conselhos sábios de quem tece toda manhã estas cores que me iludem? este que testemunha a maravilha de se compreender admirável e de se compreender mutável dia após dia, mesmo que no universo não haja nada que esteja distante desta última condição. no caderno está escrito como aquele que fecha nunca é o mesmo daquele que abre a porta, mesmo sendo deste a mesma mão. porém o que permanece não é visível nem mesmo onerável: o que permanece sempre de nós, é o que mantém contínua a importância da renovação.

o sol começa a cair e o ipê que despejava brilho-ouro começa a transluzir a escuridão da noite. eu também me reflito em suas cores noturnas. pouco sei como seremos na nossa próxima floração, mas agradeço o paradoxo estrutural de, mesmo eu achando seis anos uma odisseia ilógica para um homem, ser também seis anos apenas tempo suficiente para seis renovações de flores, como se o tempo curvasse-se em virtude da urgência complexa do real sentido de ser-no-mundo. novas flores virão, voarão, cairão na varanda onde hoje renuncio minhas vaidades e despeço de mais um dia. provavelmente não verei as próximas flores, visto que o tempo é breve, curto e novos ventos virão. mas isso de uma certa forma me conforta – uma certa forma inexplicável – e me revela a essencial necessidade de flore-ser.