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Arquivo mensal: setembro 2016

por que das coisas que conhecemos, é muito difícil selecionar aquelas que não sejam, nem mesmo que pelo tempo abstrato que os cientistas calculam da batida das asas dos beija-flores, um delírio ou uma expansão de pensamento ou mesmo uma vontade reprimida. das coisas que acreditamos, todas elas, diria eu, todas elas juntas são soma e resto de desconfortos mentais, equalizados e ambientados nisso que chamamos de realidade.

ainda assim, eu já consigo coletar amostras de impressões que estacionam na mente e cobrem a percepção. basta ter o pensamento aberto e desconfiança, e basta não crer totalmente. a velha cantiga fulni-ô, o discurso dos líderes, a prosa arcaica dos saraus infantis, nisso tudo há uma ligação para-compreensível que transpassa as palavras, deságua e forma os arroios que escorrem dos meus olhos, mesmo quando não choro.

“à fidelidade dos dias”, não consigo compreender se não espera e esperar a compreensão de minhas ideias, para este projeto inviável de futuro a que todos, como rebanho condenado pelos nossos medos, somos conduzidos. na verdade, são nossas próprias promessas que sustentam a negação diária do reflexo do espelho. dois espelhos paralelamente confrontados, desenham o paradoxo da imagem e do reflexo num vão infinito de sobreposições. chamaria essas imagens de poesia, se não fosse temente o suficiente para abortar as convicções de senso que eu mesmo já formulei.

não são apenas imagens vagas, mas também precatórias. prenuncio o desespero em frases bêbadas e reconheço a necessidade de elucidação, mas, meu amigo, reveja-se no aniquilamento de sua rotina, que destrói e empareda suas janelas e transforma seus pássaros em pesos de porta. meus pais descrevem o translado das órbitas enquanto eu fumo as cinzas da américa perdida. não compreendo, nem me faço compreender. são dias-esmos, são “jamais” recorrentes e perspectivas solitárias. são colares de arame farpado esses desejos que nos renegam.

poderia dançar como nataraja, refazendo esses preceitos cada vez que o fosse necessário. poderia escalar as cores primárias para os dias da semana, de modo que a cromologia das vogais fosse aplicada nos hábitos. poderia sossegar e deitar sobre os braços e os ombros das moças que choram as pétalas dos primeiros úteros. as existências são poucas e esse verso é profecia-eu-homem. acordei hoje com o gosto da náusea do sofrimento alheio, dos rins obstruídos e da esperança que cresce pela boca, como flor de lavanda.

desfiz os nós. comi meus prantos. esqueci o verso que, bêbado, imaginei eu ser o perfeito para iniciar meu soneto. passei e desisti. e não faço mais o colorido com a saudade, porque nem sequer conseguimos selecionar das coisas que conhecemos, o que há de nós, propriamente.