hiberno.

custei muito tempo a acordar. muito tempo, sim, mais do que percebia a necessidade. custei meses, anos, décadas, a abrir os olhos e conseguir sair do estado de dormência. séculos. custei até os segundos apagados pela órbita dos astros, os minutos adiantados no relógio, as horas engolidas pelos fusos horários, os meses perdidos nos partos prematuros, os anos que não se contaram nas mudanças de calendário, esse tempo todo, indireto, ilógico, vivi esse tempo todo em sono profundo. quando pensei estar acordado, era um sonho. quando pensei voltar a dormir, nunca tinha deixado. quando tive certeza do meu despertar, eu era apenas um lamento sonâmbulo. envelheci dormindo. esgotei a mim mesmo sem nunca estar em vigília. e morri dormindo, um sono pacífico. confortador.

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