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Arquivo mensal: julho 2016

te fiz um poema moderno,
menina,
te fiz um poema abstrato
com sotaque inglês-inglês
te fiz um poema curto
um hai-kai mal intencionado
um poema sofrido,
menino,
um poema cor de céu.

te fiz um poema antigo,
menina,
te fiz um poema assim
sem pretensão
te fiz um poema inútil
uma trova sem rima
um poema descrente,
menino,
um poema como nós.

custei muito tempo a acordar. muito tempo, sim, mais do que percebia a necessidade. custei meses, anos, décadas, a abrir os olhos e conseguir sair do estado de dormência. séculos. custei até os segundos apagados pela órbita dos astros, os minutos adiantados no relógio, as horas engolidas pelos fusos horários, os meses perdidos nos partos prematuros, os anos que não se contaram nas mudanças de calendário, esse tempo todo, indireto, ilógico, vivi esse tempo todo em sono profundo. quando pensei estar acordado, era um sonho. quando pensei voltar a dormir, nunca tinha deixado. quando tive certeza do meu despertar, eu era apenas um lamento sonâmbulo. envelheci dormindo. esgotei a mim mesmo sem nunca estar em vigília. e morri dormindo, um sono pacífico. confortador.