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Arquivo mensal: abril 2016

a certa altura da vida, descobre-se
com muita seriedade
as relíquias e os prazeres
do aprendizado do percevejo:

1- que as casas de alpendres curvos são menos infiéis;
2- que o alumínio das latas faz boas sinfonias;
3- que um morcego e uma lamparina são primos distantes;
4- que os estacionamentos de shoppings são lugares muito tristes;
5- e que o amor, ainda raro, se transmite em perdigotos.

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os dias de outono são sempre muito pertinentes. mais que isso, as tardes de outono são sempre muito propícias e pertinentes a quem tem os olhos das folhas de angico e os medos das paredes de tijolos vermelhos. estas tardes de outono, como a de hoje. ignorei a fórmula cotidiana de hospital e passei a tarde zanzando pela ufcg, um café, três-quatro-alguns conhecidos amigos. certa fumaça a altura dos olhos. tempo-espera. e a saudade, que já me vem tão apressada nesses dias de outono, a saudade que ainda hei de sentir daqui a dois-três-alguns anos, já sinto e o tempo esperado desperdiçado em não viver tanto tudo isso. e um tanto de desespero sem nexo de partir em breve e uma certa tristeza da chuva que perenemente cai em segredo diante de nossa cara, em cima de nossos pensamentos. e o tempo espaçado já, quase esfumaçado. a sutileza primorosa das coisas que se realizam nestas mesmas tardes de outono, a maneira curiosa que o jardineiro remexe o canteiro, a distinta insignificância das nuances das nuvens vistas através da janela do ônibus, minha risada sem motivo.chico cantando que a saudade dói como um barco, assim tão diretamente pra mim. dói. tudo isso dói e lava os olhos meus também. e me faz reinventar significâncias e necessidades. estas tardes de outono, estes dias, estes outonos todos são como a vida, são como nascer e são como morrer.

amigo pardal, há quanto tempo não temos nos falado. são tempos difíceis e desencorajadores, caro amigo. meu peito explode como traque-de-sala, toda vez que respiro. por isso tanto tenho me afastado – onde posso encontrar inspiração para te aconselhar à vida, se comigo não tenho nem próprios propósitos? minha fala escorre desinquieta, já sinto incomodado com minha própria presença e, saiba, pássaro solitário, o pior estado é aquele que não cabemos em nossa própria aceitação. tenho estado longe, confesso, mas o verão em breve chegará, e assim poderei voar novamente para o sul. não ter pressa já é suficiente.

no que diz respeito às coisas banais e ás coisas importantes, aos homens e às mulheres, no fundo, o que diz respeito às exigências e ao sofrimento humano é que tudo, enfim, é falta. morremos pelo excesso da ausência, não aprendemos a lidar com o incompleto. meio cheio ou meio vazio, o copo sempre é pouco. ser pouco é a aflição que me desata. não importa como vês as estruturas de construção que dão fortaleza ao edifício, há certeza: tudo é ilusão. falo com palavras insuficientes sobre o desespero galopante. pouco e fraco, bate o coração silencioso, assustado, perdido. poucos são os anos de minha incapacidade, sentir-se desgarrado, sentir-se ocupado. sentir-se menos, porque nunca é bastante. nunca somos bastantes. a possibilidade da concórdia me foi negada pela condição humana. meu pecado original é minha limitação suicida. e não há como transpor a barreira do encalço, quem me dera que meus passos fossem apressados pela chuva, ou que meus desafetos fossem a cor de meus cabelos. falo com a voz do profeta que sozinho clamava pela promessa divina, que sozinho guiava-se pelo deserto – somos apenas desertos. se um dia meu assombro concretar realidade, apenas eu o conhecerei, e, nesse dia, haverá grande satisfação de crer no ato falho de minha mente como sendo tátil e, nesse dia, haverá grande sinceridade na minha alma. não há quem entenda, eu sei, isso já me é conformado, e, creia, é esse o motivo maior.