repousa.

hoje encontrei a morte deitada em minha varanda. indiferente, eu já sabia que precisávamos conversar, desde o início da semana. ela vinha dando sinais de necessidade. indiferente, eu já sabia que não poderia tardar por muito a conversa. ainda ontem, ouvi-la chamar distante, como um eco de grito, uma ressonância de um lamento longínquo. novamente indiferente, fiz-me surdo, deixei de coisas e cuidei na vida. hoje, não teve saída, encontrei-a deitada na forma pássaro, entre as garrafas de minha varanda. isso digo, partindo do pensamento ocidental de que a morte é unidade presente no morto, e não ausência de sua vida. alguns dos poetas vieram me consolar, tardando as palavras à posição do sol. “morrer acontece com o que é breve”. “toda criatura viva na terra morre sozinha”. e, de logo, lembrei a sabedoria dos elefantes, que se permitem a reclusão solitária da morte, para que o bando não se prejudique. lembrei dos elefantes invisíveis amarrados na minha mão. mais doloroso que a solidão, ecoou neste momento, um grito das cigarras que se penduram nas árvores daqui de minha rua. e, (talvez este relato sirva de exemplos àqueles que acreditam na premeditação universal dos atos), neste mesmo momento, lembrei da pregação de meu velho avô, já falecido, que as cigarras cantam imediatamente antes de morrer. não pude senão, depois de tudo isso, concordar com suas palavras e convidá-la pra sentar ao meu lado, enquanto apreciávamos juntos o morrer do sol.

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