amnemônica.

ainda ali eu era, e éramos, enfim, um escuro. caberia dizer também que neste escuro, do qual tudo proveio, habitávamos um do outro, o mesmo conceito estado. e do escuro, como prece ao mesmo escuro, tornamo-nos luz e fé e história e tempo. tudo que coube, que soube, que houve, tudo que se crê. e da luz, veio a memória, essa antiga ferramenta dos filósofos e das donas de pensões, essa armadilha sanguínea e parca, que destorce as orelhas dos meninos púberes. pela memória, criamos, e isso é a parte de maior verdade; da memória criamos o universo e as galáxias pequeninas e os desejos dos adultos frustrados.

ainda não pude, comigo mesmo, contabilizar as possibilidades de crenças que surgiram desde que teus olhos foram, sequencialmente, tornando-se escuro, luz, memória e universo dentro dos meus olhos claro, trevas, amnésia e vazio. nem tampouco consegui prever a intensidade com que estas palavras ditas e pensadas, a princípio, já que todo pensamento é palavra prévia; não consegui prever a veemência com que estas palavras urgiam, debatendo-se em minha fronte, como peixes em rio seco, desde o instante que nos tornamos sentido, estado maior da coisa pensamento-palavra. não consegui prever, nem ambicionar o pensamento azulado que tenho hoje, ao ver-te desenhada com nanquim, toda vez que me deparo com uma árvore, um beliscão ou uma garça voante. e tenho a impressão que já vivi o suficiente.

todo o sentimento do mundo é poesia desperdiçada.

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