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Arquivo mensal: fevereiro 2016

hoje encontrei a morte deitada em minha varanda. indiferente, eu já sabia que precisávamos conversar, desde o início da semana. ela vinha dando sinais de necessidade. indiferente, eu já sabia que não poderia tardar por muito a conversa. ainda ontem, ouvi-la chamar distante, como um eco de grito, uma ressonância de um lamento longínquo. novamente indiferente, fiz-me surdo, deixei de coisas e cuidei na vida. hoje, não teve saída, encontrei-a deitada na forma pássaro, entre as garrafas de minha varanda. isso digo, partindo do pensamento ocidental de que a morte é unidade presente no morto, e não ausência de sua vida. alguns dos poetas vieram me consolar, tardando as palavras à posição do sol. “morrer acontece com o que é breve”. “toda criatura viva na terra morre sozinha”. e, de logo, lembrei a sabedoria dos elefantes, que se permitem a reclusão solitária da morte, para que o bando não se prejudique. lembrei dos elefantes invisíveis amarrados na minha mão. mais doloroso que a solidão, ecoou neste momento, um grito das cigarras que se penduram nas árvores daqui de minha rua. e, (talvez este relato sirva de exemplos àqueles que acreditam na premeditação universal dos atos), neste mesmo momento, lembrei da pregação de meu velho avô, já falecido, que as cigarras cantam imediatamente antes de morrer. não pude senão, depois de tudo isso, concordar com suas palavras e convidá-la pra sentar ao meu lado, enquanto apreciávamos juntos o morrer do sol.

em todos cantos
há mil encantos
de deuses tantos
em sinergia.
dissolvem a alma,
escondem o trauma,
o tédio acalma:
eudaimonia.

na solidão
da escuridão
há um clarão:
farol banal.
e louvo a deus
aos deuses teus
deuses ateus,
adeus, pardal.

descobri um coração enterrado na varanda
dele saíam ramas que cobriam o jardim
subiam os muros descascados
veias invasoras carregadas de insetos
descobri um coração escondido na minha alma
antes mesmo de descobrir a rosa
que no meio de sua folhagem desabrochava.
descobri um coração dentro desse matagal vivo
chamado desesperança coletiva
profecia e involuntariedade.

ainda ali eu era, e éramos, enfim, um escuro. caberia dizer também que neste escuro, do qual tudo proveio, habitávamos um do outro, o mesmo conceito estado. e do escuro, como prece ao mesmo escuro, tornamo-nos luz e fé e história e tempo. tudo que coube, que soube, que houve, tudo que se crê. e da luz, veio a memória, essa antiga ferramenta dos filósofos e das donas de pensões, essa armadilha sanguínea e parca, que destorce as orelhas dos meninos púberes. pela memória, criamos, e isso é a parte de maior verdade; da memória criamos o universo e as galáxias pequeninas e os desejos dos adultos frustrados.

ainda não pude, comigo mesmo, contabilizar as possibilidades de crenças que surgiram desde que teus olhos foram, sequencialmente, tornando-se escuro, luz, memória e universo dentro dos meus olhos claro, trevas, amnésia e vazio. nem tampouco consegui prever a intensidade com que estas palavras ditas e pensadas, a princípio, já que todo pensamento é palavra prévia; não consegui prever a veemência com que estas palavras urgiam, debatendo-se em minha fronte, como peixes em rio seco, desde o instante que nos tornamos sentido, estado maior da coisa pensamento-palavra. não consegui prever, nem ambicionar o pensamento azulado que tenho hoje, ao ver-te desenhada com nanquim, toda vez que me deparo com uma árvore, um beliscão ou uma garça voante. e tenho a impressão que já vivi o suficiente.

todo o sentimento do mundo é poesia desperdiçada.

querido pardal,
escrevo-te com a urgência da necessidade. descobri tardiamente aquilo que mudará pra sempre nossa relação. eu, que tantas vezes fui sábio, eu, que tantas vezes fui premedito: ouça, amigo, descobri apenas muito tardiamente nossa frustra natureza: pássaros como tu comem insetos como eu. temo-te. corro perigo, e tu és o meu perigo. lamento, mas sinto que preciso ir distante agora que tudo sei.

espero a gentileza da resposta. não sou um gafanhoto, lembra.
sou um louva-a-deus. abraço.