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Arquivo mensal: maio 2015

o zunido da cigarra atravessa meu pensamento e ecoa no vácuo mental que trago dentro de mim. às vezes, quando paro e tento observar toda existência de realidade que me abraça sem licença, me assombro e ignoro que alguma certeza ainda possa existir. tento, pois, cair meus pensamentos em cabeças distantes, destorcer minha compreensão para se adequar à leveza dos outros. não consigo. quando vejo, todas as tardes ou ainda cedo, bem cedo, a mancha azul que se ergue atravessada por nuvens no céu de minha rua, e recordo que tamanha giganteza não é mais que luz e efeito de céu, ponho-me a questionar sobre a minha própria existência. quem nos garante ter no mundo o espaço que ambicionamos? vejamos, poucos imaginam que o verso natural possa ser tão abstrato qual sentido expressionista. mas o quadro fala mais do pintor do que do objeto. a não-compreensão das coisas e o sentido des-literal que elas têm parece-me ser a única e talvez a mais verdadeira lição a se tomar disso tudo. porém, nego a ignorância de sentir-se pleno na falta de conceitos. mesmo que as coisas vistas na ótica de cá sejam outras coisas se vistas na ótica de lá, creio que em mim, na minha auto-ciência, possa estabelecer os paradigmas que eu julgo concretos. essa ciência própria é egoísta e falha, eu sei, mas não há matéria que eu conheça melhor senão minhas próprias convicções. desconcentro a voz de minha poética filosofia (ou poesia filosófica) no não-entendimento que meus versos trazem. sei que tudo é confuso, porque o pensamento não é concreto. lidar com abstrações e sinapses é o absurdo material que nos propomos, mas imagino que as coisas que digo, e antes de mais nada penso, possam ser úteis à trivialidade da vida. toda teoria é inútil sem um propósito prático e temos pouco tempo daqui até o fim. tempo pouco para tanta teoria (fantasias e algo mais), por isso, são os olhos e o nariz e os ouvidos e os sentidos que devem reger a semântica natural da realidade. tenho preguiça e obrigações sociais, e me faltam as virtudes de concretização do meu projeto-de-ser-humano. quem me dera a vida falasse baixo comigo e tivesse aqui alguém para rir dos meus sonhos, mas exigir da humanidade é assumir sua falta, e o orgulho grita, brada. todos esses pensamentos são colocados em minha mente pelo zunido da cigarra na minha rua, meu único papel é traduzi-los para a língua dos homens e fazê-los crer que tudo isso é muito raro. demais.