desculpas.

nobre pardal, há tanto tempo que não te escrevo.
há tanto tempo não te mando nem um simples assovio-passarinho, entre as mangueiras que recobrem de folhas o meu quintal. tenho descoberto em mim mesmo muita falsa pretensão, amigo. sinto-me cada vez mais fraco e sozinho, como raminha de maracujá que escala paredes e telhados. não me deixe só, pardal leal. me diga, de onde vem essa tristeza? toda essa tristeza que nos recolhe em nossas gaiolas, poda nossas asas? aforismas e paradoxos não são muito úteis quando a necessidade é entender. talvez seja mais certo acreditar que não nasci pra essas coisas, pra esse desprendimento completo da razão que os voos sobre as montanhas tanto necessitam. creio que sou, na verdade, pássaro de planície. acredito na vida como um atirar pedras rio acima; não adianta a força ou o peso das pedras, o rio sempre as traz de volta. além disso, toda essa minha filosofia incoerente não passa de um choro velado que arrasto há anos em meu peito. o choro do mundo, dos doentes da alma, pois tenho medo de conter na alma as palavras-cânceres que levam ao suicídio psíquico e acabar engolindo-as por acaso de muito pensar. não há uma alma que não seja isso, escute: desvio refrativo das palavras não vomitadas pelo inconsciente. e, quando a gente menos espera, a palavra estoura na boca do estômago, cai na corrente sanguínea e intoxica aquilo que fomos em nossos mais belos sonhos. transformando-nos em lamento. não me deixe só, pardal amigo. por que ainda estás aqui? não há mais nada a se dizer.
sinto saudades. visita-me em breve.

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