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Arquivo mensal: janeiro 2015

nobre pardal, há tanto tempo que não te escrevo.
há tanto tempo não te mando nem um simples assovio-passarinho, entre as mangueiras que recobrem de folhas o meu quintal. tenho descoberto em mim mesmo muita falsa pretensão, amigo. sinto-me cada vez mais fraco e sozinho, como raminha de maracujá que escala paredes e telhados. não me deixe só, pardal leal. me diga, de onde vem essa tristeza? toda essa tristeza que nos recolhe em nossas gaiolas, poda nossas asas? aforismas e paradoxos não são muito úteis quando a necessidade é entender. talvez seja mais certo acreditar que não nasci pra essas coisas, pra esse desprendimento completo da razão que os voos sobre as montanhas tanto necessitam. creio que sou, na verdade, pássaro de planície. acredito na vida como um atirar pedras rio acima; não adianta a força ou o peso das pedras, o rio sempre as traz de volta. além disso, toda essa minha filosofia incoerente não passa de um choro velado que arrasto há anos em meu peito. o choro do mundo, dos doentes da alma, pois tenho medo de conter na alma as palavras-cânceres que levam ao suicídio psíquico e acabar engolindo-as por acaso de muito pensar. não há uma alma que não seja isso, escute: desvio refrativo das palavras não vomitadas pelo inconsciente. e, quando a gente menos espera, a palavra estoura na boca do estômago, cai na corrente sanguínea e intoxica aquilo que fomos em nossos mais belos sonhos. transformando-nos em lamento. não me deixe só, pardal amigo. por que ainda estás aqui? não há mais nada a se dizer.
sinto saudades. visita-me em breve.

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uma réstia de claridade atravessa a falha de sombra entre a cortina e a parede, deixando escorrer um fio luminoso, como melado grosso derretendo por entre a penumbra do cômodo, até a parede oposta, onde obliquamente incide no espelho manchado e despeja-se em contra-ataque sobre mim. com o dorso das mãos, esfrego preguiçosamente as pálpebras fechadas, bocejo o hálito ainda etílico da comemoração passada e, em repetidos movimentos, fecho e abro freneticamente os olhos, buscando despertar à face para um novo começo: acorda, que já é 2015. ainda, meio que embalados nesse sentimento de reinício próprio de todo janeiro, enxergamos como os passos dados hoje parecem conter uma ligeireza diferente em seu caminho, parecendo até mais seguros em suas passadas, e nas pessoas, como desandam a tracejar motivos para mais produzirem, mais criarem, mais aproveitarem de si mesmo a beleza daquilo que é novo. como uma descoberta coletiva e ao mesmo tempo individual, tudo parece revelar novas oportunidades de vida, explosões múltiplas e controladas de cor e energia, de sensações e possibilidades. pudera colombo explicar, talvez, ao olhar pela primeira vez o novo mundo, o prazer de descobrir o inédito e sentir o gozo que há por trás do descobrimento. não muito distantes disso, sentimos em escala cotidiana as diversas descobertas de nossa consciência, sejam próprias de nossos anseios, sejam favores dados pelo mundo à nossa momentânea realidade; embriagados nesse bálsamo que ameniza nossos percalços diários, recompensa de nossas sucessivas tentativas. sustentados nas surpresas que encontramos em nós mesmos, alçamos nossas melhores perspectivas através da motriz necessidade do início, calçar as botas da inovação e seguir adiante no objetivo da produção. todo começo é, por si só, o próprio caminho. todo passo é prenúncio de sua própria jornada. e tudo aquilo que nos incita a sair de nosso comodismo estático, é também aquilo que nos move, que preenche de ar os pulmões e acorda os mais bem guardados sonhos, a fim de transformar em ato nosso substrato de consciência. destarte, investidos do ânimo necessário às grandes e singelas realizações cotidianas, podemos enfim retomar nossas ocupações e deveres, celebrando neles a extraordinária possibilidade de transformar o trivial em inédito cotidianamente. dispostos, por fim, a provocar em nosso âmago, renascido em nossas próprias expectativas, a produção humana e comum daquilo que somos, fazemos e recomeçamos todos os dias.