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Arquivo mensal: novembro 2014

todas as vezes que saio e vejo mundo e me deparo com as incontáveis voláteis novidades que ele me apresenta, tenho em mim a necessidade incendiada de registrar aquilo que vejo, aquilo que ouço, aquilo que percebo, e perpetuar a aquarela de sensações que me externam. fosse eu um pintor (pelo menos de futuro), marcaria em tela e tinta as nuances de imagem e os desfoques de minha retina. fosse eu compositor, criaria do som dos estalos ritmados de barulho caótico das seis da tarde, aquilo que meus ouvidos alcançam entre o silêncio. sou apenas o das palavras e com elas e através delas desabrocho o passarinho inconsciente que canta no pé-de-flor de minha rua, tão solitário em seu canto, sem nem dar conta de minha presença espectadora. isso tudo que as pessoas mentem ser essenciais – água, comida, lazer, descanso – não é mais essencial que a luz arroxeada do sol tingindo em púrpura o céu à oeste. quem consegue respirar dessa luz, tem os pulmões suaves da aurora laranja, do verdor das folhas novas das acácias e das palmeiras. as gentes que costuram sorrisos, a senhora da padaria ou o senhor mal-humorado sentado à beira da calçada, são dignos da memória eterna de quem os vê, pois são únicos e tangíveis perdidos num universo multidimensional. a respiração ofegante do menino que grita, da moça que carrega seus livros, do motor do ônibus que sobre a ladeira; os pesadelos vívidos da colmeia de vespas que, pesada, espera apenas a oportunidade de cair do galho idoso e espatifar-se nos paralelepípedos de minha rua; a cigarra que acorda outras cigarras, para fofocarem sobre a vida das senhoras que acordam cedo e varrem suas calçadas empoeiradas. tenho em mim a necessidade frustrada de marcar entre prosa essas imagens, de assegurar que seus vultos vespertinos não se dissolverão ao cair da noite. se pudesse, eu desenharia todas as folhas de todas as árvores de minha rua no teto de meu quarto, dando ênfase na pintura à maneira delicada que o sol estende-se preguiçosamente sobre elas nos sábados e nos dias de fartura. o mistério maior do universo, das coisas vivas e dos seres pequenos reside nas coisas simples e incríveis do cotidiano. quem pode ver o desenho azulado atrás dos galhos, ouvir o som infrequente de alguma rádio rompendo as paredes de alguma casa, sentir a aspereza de uma casca de árvore, este sim descobrirá a fiel verdade por trás dos átomos.