i’m like a bird.

e, depois de muito tempo voando, o passarinho volta à velha árvore trazendo os sábios conselhos que aprendeu por onde passou. devagar e despretensioso, balança seu corpo pequeno, fazendo agitar as penas da cauda, sacudindo todo resquício de poeira que acumulou em sua trajetória. calmamente vagaroso, se coloca no galho mais alto da grande amiga arbórea, belisca o agridoce néctar de um fruto verde e lança um longo assovio que se arrasta por toda a colina. sente o prazer canário de voltar pra casa, de rever os montes azulados do horizonte para onde o vento leva seu canto afinado. sente a brisa em seus pés, a aspereza da madeira roendo suas unhas e a clareza do sol refletida na verdura das folhas. o passarinho volta pra casa, e tudo parece estar como antes. a realidade permanece imutável como filme pausado após sua partida. não se consegue enxergar novidade em parte alguma. todavia, algo não é mais o mesmo. a pequena ave coça com o bico suas azuladas asas e percebe que, mesmo tudo estando externamente idêntico, algo havia mudado no seu interior.  passarinho descobre que ele já não é mais o mesmo e que tudo aquilo já lhe é indiferente. já não lhe pertence. como estrangeiro de sua própria terra, o passarinho lamenta os sonhos que não sonhou estando longe, e, triste, não cabe seus novos desejos na sua antiga realidade. e, com o pôr-do-sol, o passarinho novamente sente em si o desejo de abrir as asas e se lança outra vez a buscar aquilo que nunca encontrou.

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