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Arquivo mensal: outubro 2014

sinto falta do cheiro verde do mato quebrando os primeiros dias de junho. na manhã seguinte do derradeiro de maio, o barandão seco já livre da bandeira de nossa senhora, recolhida na noite anterior, escorrendo a mistura de orvalho e sereno da noite fria, a embriaguez do sentido de ser aquilo tudo, o pasto, as árvores e as pessoas, uma mistura quase inumana de sensações coloridas e intrínsecas à paisagem. o carro de boi puxado por um jumentinho manso, carregando dois meninos de idades e expressões diferentes; as mulheres que acordam cedo, trazendo a manhã para as ruas com suas vassouras e conversas; o cheiro do leite que esborra da lata de óleo e cai no pé do leiteiro ambulante; a mesmice dos dias, os fatos pequenos, as sempre-comuns reclamações e o sono curtido. sinto falta das sensações que enchiam meus olhos, assim como o pífano enchia os ouvidos na procissão de são sebastião.sinto falta do medo controlável daquela época, do desespero inocente, da solidão desproporcional. sinto tanta falta que poderia voltar ao que fui, por circunstância de não ser o que sou.

e, depois de muito tempo voando, o passarinho volta à velha árvore trazendo os sábios conselhos que aprendeu por onde passou. devagar e despretensioso, balança seu corpo pequeno, fazendo agitar as penas da cauda, sacudindo todo resquício de poeira que acumulou em sua trajetória. calmamente vagaroso, se coloca no galho mais alto da grande amiga arbórea, belisca o agridoce néctar de um fruto verde e lança um longo assovio que se arrasta por toda a colina. sente o prazer canário de voltar pra casa, de rever os montes azulados do horizonte para onde o vento leva seu canto afinado. sente a brisa em seus pés, a aspereza da madeira roendo suas unhas e a clareza do sol refletida na verdura das folhas. o passarinho volta pra casa, e tudo parece estar como antes. a realidade permanece imutável como filme pausado após sua partida. não se consegue enxergar novidade em parte alguma. todavia, algo não é mais o mesmo. a pequena ave coça com o bico suas azuladas asas e percebe que, mesmo tudo estando externamente idêntico, algo havia mudado no seu interior.  passarinho descobre que ele já não é mais o mesmo e que tudo aquilo já lhe é indiferente. já não lhe pertence. como estrangeiro de sua própria terra, o passarinho lamenta os sonhos que não sonhou estando longe, e, triste, não cabe seus novos desejos na sua antiga realidade. e, com o pôr-do-sol, o passarinho novamente sente em si o desejo de abrir as asas e se lança outra vez a buscar aquilo que nunca encontrou.

vejo a indisposição dos meus atos como o contratempo de minha vontade. receio cada vez mais não poder dissociar-me da razão confusa por detrás de minha realidade. os dias, o tempo, tudo está confuso – e eu receio não clarear ideias durante o verão. não compreendo o que passa diante de meu sentimento, embora cada vez mais a falta se anuncie. preciso repontuar os fatos, listar as sentenças e desamarrar os sapatos sempre que chegar em casa. pois o produto que tenho disso tudo, hoje, é-me pura inconfortabilidade. renuncio meu medo e temo não conseguir mais escrever em versos. de minha boca não sai mais a terceira pessoa. e eu, mais que eu, só sei de mim. porém confundo-me em minha sub-existência, no meu fracasso social e minha sequidão afetiva. sou lago seco, rachado, tal como barragem seca em ano de estio. sinto de gozo o desejo de reiniciar, mas meu espírito ignora o meu anseio e me agrada com prazeres curtos. meu discurso é falso e ninguém se importa realmente com ele. se disfarço, é para ser notado. se minto, desejo ser desmascarado. a importância do fato dá-se pela importância da circunstância. quero levar comigo todos os meus feitos, ser rei de minha alucinação. mas sinto minha mente cada vez menor, murchando. nem sei mais fazer metáforas! desejo a ilusão de ser condenado e o amparo de uma criança. peço aos anjos que não me deixem só, pois cada vez que tropeço, anseio mergulhar nas mais profundas fossas de minh’alma. já duvido se me vale o esforço da batalha. já descanso em minha inutilidade.