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Arquivo mensal: julho 2014

tenho vinte anos de pássaros vividos.
de açudes e cheiro de terra aguada.
tenho vinte anos de equilíbrio sobre o meio-fio,
de escorregador de pedra e pequenez humana.
tenho vinte anos de coceira entre os dedos dos pés,
e de reza e de cruz de via sacra.
tenho vinte anos de rãs e peixes pequenos,
de anzóis e de minhocas cavadas com as mãos.
tenho vinte anos de pasta em barreiro,
de curral e de vagens de algaroba.
tenho vinte anos de saudade e de lembrança
e de realidade antiga, daquelas que só tem, quem já viveu muito.

tenho andado ultimamente tomado de uma sensação estranhamente difícil de conceber em palavra. sensação julho. a rotina e a sonegação da própria vontade, a semelhança e a inveja imprópria, os pulmões cheios de fumaça e a liberdade humilhante de sempre ter que se colocar em seu lugar, distorcem, frente a mim, essas coisas que eu nunca pudera imaginar. veja, quem diria hoje estarmos aqui? não é menos despropósito de vida querer acreditar que esse tempo vai passar do que pensar que tanto tempo também já foi perdido. a dúvida da (im)possível confiança absoluta é meu sinal de alarme para as coisas que não precisam de sobreaviso. basta, pois, a minha necessidade de palavras alheias, submeter-me ao silêncio das outras pessoas e acreditar, sim, verbo repetido, acreditar que tão pouco ainda era diferente, e hoje muita coisa faz sentido. tudo é tátil e diferente. pensava eu olhando a chuva pela vidraça de um ônibus hoje à tarde, num verso aparecido entre tortas desesperanças: chão de areia não faz lama. o que seria eu, pergunta meu fatigado sistema límbico, nessa metáfora de sereno? a lama, o chão ou a negação de uma coisa na outra? seria mais próximo se essa analogia caísse em chuva sobre esses medos frios que alimento e enlameiam a forma que escolhi de ver o mundo? aquele cd clássico de nação, aquele verso escondido entre minhas orelhas e o fone de ouvido: o medo é a origem do mal. e não há senão vazio a se completar. temo que as pessoas não entendam a incoerência plástica dessas palavras (por preguiça de atingir a profundidade ou medo, talvez) e as ignorem. aliás, nem temo. temeria se isso fosse importante. antes era, hoje não mais. acredito, sim, outra vez o verbo repetido, acredito pois que tudo isso é bom, é justo, é bonito, é verdadeiro, embora ainda continue chovendo um pouco.

é como se fossem dúvidas
ou aves luzentes,
eu olho e observo desatento o caminhar das pessoas
e tiro minhas próprias conclusões
e negações.

não há mais que suposições,
nesse caminho 
não há mais que abstrações,
tudo é pálido como o tédio,
tudo é pálido como o medo.

já não me ignoro como fiz, nem tenho pressa.
vai-se aprendendo a viver
e adaptar-se
com as coisas da vida, essas coisas.
já não há mais necessidade real, e 
sinto que a poesia tem-me abandonado e 
apenas há realidade bruta, tenho lidado com ela.

antes fossem meras especulações,
mais que trofismo mental por decadência
e ricularização,
eu já não sinto que posso contar com minhas palavras,
e esse vazio é tudo.