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Arquivo mensal: maio 2014

a festa da bandeira 
no derradeiro de maio 
no malembá.
o balão de seda e grude aceso
sobe-não-sobe,
o céu chuvoso.
o pífano,
a regina coeli.
aqueles medos.

todo 31/05, eu faço sentido.

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lembro-me com nostalgia dos tempos quando eu ainda era romântico, quando ouvia com devoção cícero entre a chuva de julho de campina, e do tempo que eu alimentava esperanças frias e distantes. tenho tanta nostalgia ao lembrar das vontades e das ambições e da minha ingênua ignorância frente a máquina devoradora do mundo. lembro que tinha eu mais fé, rezava mais e acreditava com mais facilidade; não era tão chato como hoje, nem tinha tudo isso que a idade nos proporciona: cansaço, medo e insegurança tardia. era tão pequeno ainda, tão jovem, tão fiel. e hoje me parece que o pôr-de-sol diário vale-me mais como sufrágio que recompensa, distante como a certeza e pobre de semântica que favoreça aquilo que realmente faz bem.

todo mundo tem um pouco de poesia. 
todo mundo tem em si seu próprio eu-lírico.
mesmo que escondido entre os dedos,
recolhido atrás das orelhas,
onde se guarda tanta ambição,
todo mundo guarda em si a poética das pessoas únicas.
cada homem, mulher, 
menino, velhinho
jovem ou aristocrata
sabe qual o seu ponto de exclamação interior e próprio
onde regurgita a somática dos sentidos
e distorce com devoção social
seus medos e suas paixões.
toda e qualquer pessoa existente no planeta
traz em si mesmo o verso que falta,
a métrica escandida, 
e a chave-de-ouro do próprio soneto.
todo mundo é poema,
é trova,
é hai-kai,
samba-canção,
literatura de cordel.
todo mundo é poesia, 
porque para a poesia 
todo mundo é aquilo que há.

sinto vivo o pesar do desespero
suicida tal qual voo da mariposa,
que da palmeira onde imóvel pousa
pra sorver do pólen-mel o seu tempero,
abre as asas, em esforço já efêmero,
troca fôlego por sua covardia,
destrambelha, tropeça e rodopia
como louca bailarina pelo ar,
tentando a quase todo custo alcançar
o brilho amargo da luz fosca e amarela,
mesmo que, sem perceber que a fraca vela
quente queima, arde ferve e se inflama,
sem temer, adentrando a fraca chama
a mariposa incendeia a sua dança
se rende ao seu fim quando se lança,
como quem se atira a quem se ama.