livrai-nos.

como num costume secular, hoje às seis voltei a deitar nos ombros de minha mãe, tal qual cristo morto descendo da cruz, para rezar o terço da virgem na sala de casa. ela rezava em voz e eu em mente. não rezava. perdia-me voltando às insônias de minha infância, enquanto já guardava meus medos imaturos, escorrendo em via sacra pelas ruas do tambor, levando a culpa das penas de cristo numa cruz negrana frente da procissão. a morrer crucificado, teu jesus é condenado por teus crimes, pecador. e ao mesmo tempo que via o carcará cortando o roxo céu ainda à tarde, sentia a explosão cósmica que esfarelou a mentalidade prematura do eu jovem de 11 anos, reprimido na ausência de possibilidades para além do coração manso e humilde. hoje, não sinto as certezas, tudo é inconstância e meu sensível coração é volátil, minha jura sacra é infiel. eles estão perdendo você nisso. sabemos pouco além dos nossos anseios, e não há quem ouça o grito calado. as mãos que enchem o fardo não conhecem o peso que as costas sustentam. a cada ave-maria, a dor que desatava em meu peito roía como chaga mutilada em cristo, pois o medo que sentimos – eu e ele – é o mesmo. não há motivo real, mas sinto cada vez mais distante do que fui.

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