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Arquivo mensal: março 2014

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o que há de mais sagrado naquele que apenas vê
vale menos que suas lágrimas
e seu fel doente.
visto suas roupas,
visto seu futuro.
dança na construção do universo o menino-azul.
abrem-se cabeças em pálida-luz-cirúrgica…
e o entorpecente mentiroso,
há menos lágrimas e fel doente.
tudo em volta é absurdo:

ainda que os poucos concretos de minha frente disfarcem,
a ruína em meu peito já cessa.
somos menos mais do que somos pros outros, pra nós mesmos.
espero um dia acreditar fielmente nisso.

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sinto uma saudade que não é minha,
carrego uma falta que vai além de mim.
como a água que cai sonora
pela bica do telhado em dia de chuva,
escorro na minha própria liquidez.
beberia goles de minha essência
para tentar matar a sede do que sou.
nada compreendo além da minha insuficiência.
ser para si mesmo nunca é bastante,
ser para si mesmo é apenas o que nos resta

como num costume secular, hoje às seis voltei a deitar nos ombros de minha mãe, tal qual cristo morto descendo da cruz, para rezar o terço da virgem na sala de casa. ela rezava em voz e eu em mente. não rezava. perdia-me voltando às insônias de minha infância, enquanto já guardava meus medos imaturos, escorrendo em via sacra pelas ruas do tambor, levando a culpa das penas de cristo numa cruz negrana frente da procissão. a morrer crucificado, teu jesus é condenado por teus crimes, pecador. e ao mesmo tempo que via o carcará cortando o roxo céu ainda à tarde, sentia a explosão cósmica que esfarelou a mentalidade prematura do eu jovem de 11 anos, reprimido na ausência de possibilidades para além do coração manso e humilde. hoje, não sinto as certezas, tudo é inconstância e meu sensível coração é volátil, minha jura sacra é infiel. eles estão perdendo você nisso. sabemos pouco além dos nossos anseios, e não há quem ouça o grito calado. as mãos que enchem o fardo não conhecem o peso que as costas sustentam. a cada ave-maria, a dor que desatava em meu peito roía como chaga mutilada em cristo, pois o medo que sentimos – eu e ele – é o mesmo. não há motivo real, mas sinto cada vez mais distante do que fui.