eu tenho medo.

“Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.”

(Alberto Caeiro, em O Guardador de Rebanhos)

há o medo e não há como negá-lo.
ele impera sobre mim, sinto pobre prisioneiro.
como o meu coração, sou aquele que não sente.
não há, contente-se nunca haverá,
contente-se.

como um ruído de chocalhos, eu tenho medo.
se a solidão há de ser minha tenra companheira, estarei só.
como sempre estive.
não há ilusão para quem se conforma.
o medo é o que há.
e não vale a pena!
não vale a pena.

meus amigos sofrem com a dor.
meu sentimento é só ilusão.
eu tenho medo,
acima de tudo eu tenho medo.
não sei no fundo o que é saudade, satisfação ou prece.
meu medo vai além.

aquilo que sinto, é o que sou.
aquilo que mostro, teoricamente, me faz.
se há outro eu, não me apresentaram.
eu sorrio triste,
como se ainda houvesse esperança,
– mas, coração desgarrado,
não tens medo!
não ouves o que diz a boca do sábio.
aquilo é o que é.
aquilo sofre o que sofre.
não importam as conveniências.
há a dor, o fim do mundo e o juízo final.
falo com a boca dos anjos,
suspiro o grito dos desesperados.
e se hoje me derramo, sei que o que sinto
será eterno.

o bom de consigo ter todo o coração é saber o que se tem.
me valem o valor da palavra. mas o coração também é o que se é.

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