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Arquivo mensal: outubro 2013

“Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.”

(Alberto Caeiro, em O Guardador de Rebanhos)

há o medo e não há como negá-lo.
ele impera sobre mim, sinto pobre prisioneiro.
como o meu coração, sou aquele que não sente.
não há, contente-se nunca haverá,
contente-se.

como um ruído de chocalhos, eu tenho medo.
se a solidão há de ser minha tenra companheira, estarei só.
como sempre estive.
não há ilusão para quem se conforma.
o medo é o que há.
e não vale a pena!
não vale a pena.

meus amigos sofrem com a dor.
meu sentimento é só ilusão.
eu tenho medo,
acima de tudo eu tenho medo.
não sei no fundo o que é saudade, satisfação ou prece.
meu medo vai além.

aquilo que sinto, é o que sou.
aquilo que mostro, teoricamente, me faz.
se há outro eu, não me apresentaram.
eu sorrio triste,
como se ainda houvesse esperança,
– mas, coração desgarrado,
não tens medo!
não ouves o que diz a boca do sábio.
aquilo é o que é.
aquilo sofre o que sofre.
não importam as conveniências.
há a dor, o fim do mundo e o juízo final.
falo com a boca dos anjos,
suspiro o grito dos desesperados.
e se hoje me derramo, sei que o que sinto
será eterno.

o bom de consigo ter todo o coração é saber o que se tem.
me valem o valor da palavra. mas o coração também é o que se é.

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há quem tanto almeje
se completar em coisas e pessoas,
mas não seriam essas coisas e pessoas,
coisas e pessoas a também se completar?

a minha solidão já está conformada
e meu arbítrio vago não passa de um mero pressentimento.
já tenho fomes e vontades e medos.
já sou, mas não sinto completo.

vejo como as pessoas e creio que creio como creem.
danço, apresento-me, faço festa e cortesia.
sorrio como só.
mas só,
o infinito que me ocorre vai além e eu sou pequeno.
não contente, imagino e satisfaço-me.

a promessa do futuro, o amanhã, o ontem, a hora inexistente,
as convenções, o horário certo.
o vazio chega a cortar-me
e se me descubro vítima, parece que padeço.
tenho medo, vergonha e orgulho suficientes para um homem;
mas sinto que preciso de constante afirmação.
se permaneço, sufoco.
se me exponho,  humilho.

sempre serei o que sou e o que fui.
viver é a maior conformação.

lembro de uma vez quando contava com sete anos. de minha irmã, cortando as paredes de minha rua com o seu grito. nome e sobrenome acompanhado de “venha tomar seu banho que já é tarde!”. doces suspiros de insônia invadem meu peito, já a essa hora. que me trazem essas memórias senão doces suspiros de insônia? aos poucos, o tempo passa e evolui. lembranças são moldadas e dirigidas àquilo que chamamos de nosso destino. moldada: gosto dessa palavra. lembra-me barro, mãos, um produto final bem produzido – ou não, depende do talento, das mãos e da velocidade do processo. moldada. minha vida segue moldada a rumos que nem eu pudera antes disto tudo ousar-me prever. o sítio simples com três ou quatro caprinos, um papagaio de parede e uma parede branca. que lua medonha faz hoje, veja. a lua me traz lembranças de medo de lobisomens e de almas penadas. quem pode controlar a imaginação de uma criança, ora. subitamente me afasto dessas coisas – procuro um copo d’água e um lugar onde vente. já não vale mais a pena essas pessoas. tenho amigo adoráveis, digo, adoráveis. sim, sim. fomos ao teatro. dois passos, risadas, bar. eles vivem tão distante. pensam tão distante. flutuam em uma necessidade talvez não necessária. necessito ir urgente ao dentista. minha blusa de botões azul. alguém deve salvá-los. alucinados vivem na fantasia que constroem. não conseguem palpar uma realidade tão palpável. absorva-os. faço um conto que amarre minha loucura. meu deus, porque sou tão diferente? compensai minha diferença dos demais com coisas e pessoas ou pessoas adaptáveis. ela nos afasta do que somos. é como lambuzar-se de mel e não sentir o doce gosto. mas sentir por observação alheia. fingir ser, sabe? por que somos então? troque de disco, prefiro belchior. meus conhecidos sentem pena de mim. não dizem, nem declaram; mas posso ver. coitados, foi o que eu disse ao descer a minha rua só. coitados. preciso trocar as pilhas do meu relógio, atrasa, não é ainda meia-noite, duvido. um show de cultura popular sempre me desperta algo. gosto de café frio e parece que ando amando uma menina. ela usa calça jeans. sorri, e eu também. mas porque eles fazem tantas perguntas? tenho que dedicar mais do meu tempo àquilo que me interessa. viagens, projetos literários, poesia e mais uma xícara de café. coisas óbvias que, porém, ninguém vê. nega-se de repente por essência. talvez aquela psicologia freudiana que tanto me agrada me acalente à noite. aquele frio solitário em meu peito. por que não? dúvidas, dúvidas, dúvidas… por que tanto me perseguem? lembro-me do recife e de novos amigos a conhecer. poderia. poderia me mudar, recomeçar minha vida, criar galinhas no quintal. eu queria conhecer mais aquela jovem poetisa da outra rua, que sempre tem água escorrendo. a rua. poderíamos sair, não? cantar por aí. não tenho cantado em canto nenhum. tenho que rever os papéis da minha aula. preparar assunto, refazer adolescentes rebeldes, criar pais. a ciência tem e não teme à necessidade de explicação. aqueles meus amigos! minha mente é um turbilhão de tempestades e todo raio insiste em cair no mesmo lugar. minha crise existencial, meu sopro de inconsciência, minhas sessões de meditação indiana: preciso dedicar mais tempo. e a mim mesmo. porque pouco a pouco, dia a dia, deixamos de ser os mesmos. está na hora de você aceitar, crescemos. amo minha nova cidade, tenho amigos distintos e afazeres que muitas vezes compensam novas frustrações. recordo agora, aquela doce atriz que conheci. sorria com os cabelos, e eu também. meu coração, coitado, batia feliz, quando a via não sei o porquê. coitado. deve ter casado já. há anos não me manda um convite para um novo espetáculo. fomos ao teatro.

talvez
 
três lágrimas
um sorriso amarelo.
uma promessa –
talvez amanhã.
ou não.
 
conforme
 
volte amanhã. voltarei.
talvez quem sabe quando as lágrimas secarem,
e os sonhos despertarem…
meu sorriso ainda seja o mesmo.
e o mesmo ainda sorria para ti. 
 
falácia
 
sabe de uma coisa: fica onde estiver!
não quero te ver nunca mais.
as tardes já não são tão frias…
a noite já brilha estrelas.
e eu realmente tento olhar para elas.
malditos elefantes, por que ainda se lembram de mim?
corrompe-me as veias dilatadas,
dá-me teu último suspiro,
o som, o grito, a arma de fogo,
aquele carrossel bordado de elefantes.
malditos elefantes, por que ainda se lembram de mim?
minha cara, teu suor,
força bruta que se desfaz.
e eu só e só eu.
teu retrato desbotado na parede.
malditos elefantes, por que ainda se lembram de mim?
hoje aqui,
teu grito engole o tempo,
os elefantes  passeiam na tua face,
zombam de mim.
me perseguem! não aguento mais!
faço uma prece.
malditos elefantes, por que ainda se lembram de mim?

Deus! 
na noite mais escura,
na noite mais longa,
na noite mais fria,
eu fui fraco,
e condenado a carregar comigo esses elefantes…
os elefantes…
malditos elefantes, por que ainda fazem parte de mim?

perdidos vadeamos,
o medo, o sangue,
partiu nosso próprio eu-
lírico.
atordoados olhamos a selva,
o concreto,
o monte feito das nossas causas-perdidas –
necessidades cada vez mais desnecessárias e obrigatórias.
agonia, falta-me ar.
buscamos o reflexo,
o espelho de narciso,
somos o outro,
entregamo-nos. não lutamos.
mas sorrimos pra tela
sonhando em um dia talvez tê-la na nossa janela.
falso despropósito humano.
o eterno manifesto futurista consola a alma 
e há tanto o que fazer
e veja. não foi, não tinha que ser assim.
como quem sonha em líquido volátil.
despeja-se e, tão rápido, esvai-se.
onde pudera, quisera, quimera.
onde viver, ah, josé, para onde?
nada a fazer, nada.

em.
algum.
eu.

com sua licença, senhor.