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Arquivo mensal: agosto 2013

era uma vez,
um rapaz magrelo
de cabeça grande,
que usava suéter
verde-petróleo,
para combinar
com as meias metidas
no sapato social.

um belo dia,
o rapaz magrelo
abandonou a família,
caiu no mundo.
decidiu ser músico,
viver de rock’n’roll.
sumiu como fumaça,
gritou à meia noite
no farol vermelho
do cruzamento
do centro da cidade.
virou lenda,
usou turbante,
tatuou o nome da sua mãe 
num coração 
no braço direito,
tirou a roupa
em praça pública,
fumou maconha
e fez amor com 
trinta e sete mulheres
diferentes em um mês.
deixou o cabelo crescer,
usou rastafári,
raspou a cabeça,
chapéu panamá.
aos vinte e nove anos,
já havia cruzado
a fronteira do paraguai
quarenta e duas vezes
e nunca se arrependera
em toda a sua vida.
não conhecia o tempo,
a dor e a censura.
chegou na venezuela,
embarcou em cuba,
atravessou o deserto,
o sol de miami beach.
virou marujo
em plena flórida
e nunca alcançou a califórnia
e a vida, não aprendeu
sequer a nadar.
navio seguiu,
le champ des femmes,
atlântico, frança,
chegou em paris.
buscou o oriente,
andou sem parar,
praga, kiev, rússia, 
cáspio, teerã, cabul, 
paquistão, nova délhi.
descobriu as índias,
comeu hiduísmo,
banhou-se no ganges
e encontrou-se ali.

até que envelheceu,
pintou os cabelos,
pagou o ipva, iptu e inss.
fez o depósito no banco,
a parcela do cartão,
chegou em casa
cansado e frio,
abriu o guarda-roupa,
vestiu o suéter
verde-petróleo.
parou de inventar histórias.

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a partir de agora, fica decretada a ditadura do riso.
seja o que for, haja o que houver, o riso prevalecerá.
a cada um cabe as consequências de seus atos.
a cada homem serve apenas o desespero do seu riso.
não há por que temer. 
não há por que duvidar.
o riso prevalecerá.
o riso, apenas ele, a sua demência.
o riso basta.
e os que sofrem, que sofram, a partir de agora rindo.
rindo o riso eterno dos desesperados.

“Quem não tem Deus pra caminhar, não tem ninguém.”

ano 2006, Teixeirinha no programa de Pessoa do Nascimento na rádio Surubim AM, às cinco e cinquenta e dois da manhã, me levantando da cama pra tomar meio litro de vitamina de abacate e pegar o toyota pra ir pro colégio em Surubim, levando comigo as esperanças da minha mãe – sempre diziam que, no futuro, eu teria problemas de coluna – eram pesadas. certa vez, voltando do colégio, passando por uma farmácia, até cheguei a pesar: deu cinco quilos e setecentas, se não me esqueço. e eu era apenas uma criança. mesmo assim, eu as levava com gosto. sinto um pouco de saudade até.

eu no chão
olho pro céu
e vejo um pássaro voando.
o pássaro voando
parece que nada
no azul infinito.
ele não pode
sequer imaginar
que eu o vejo
voando como quem nada.
eu olhando para o céu
também voo.
e vamos nós dois
voando e nadando.
ele lá e eu cá
não podemos imaginar
que as coisas
que são
como são,
assim são
porque assim deve ser.