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e o resto
de certo

cabresto
deserto
funesto
pretexto

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dentro desse meu coração ruído
há uma espécie de liberdade embriagada
frágil solitária
dentro desse meu coração ruído
há pessoas, planos e afazeres domésticos
há coisas e causos
dentro desse meu coração ruído
há uma canção que não se ouve
houve perdas e obstáculos
e um futuro preso no passado
dentro desse meu coração ruído
há uma saída, uma voz
um tom surdo pálido doente
dentro desse meu coração ruído
eu creio que há uma velha esperança
da juventude que queria ver o dia nascer feliz
por um triz
havia eu
dentro desse meu coração ruído.

lembrei-me hoje do dia que passei a ter fixação pelo céu. foi numa tarde, quando via o pôr do sol, por entre as crateras de vertente do lério. lembro-me diante de um céu vermelho como um céu chinês, tão rubro que cheguei a questionar se seria mesmo um céu ou um mar de sangue estendido sobre minha cabeça. grandes vultos de caminhões carregados de pedra cal levantavam poeira. e aquele céu. sangue vivo. não fosse um fato relativamente recente, poderia supor que gonzaguinha tivera composto sangrando para aquele céu. desde então passei a colecionar em minha memória os pores de sol de minha vida e a celebrar, como se vivesse em um planeta pequeno o suficiente, cada por do sol quarenta e três vezes.

há certo tempo não escrevo crônica. e isso por há certo tempo não ter tido mais a velha e insólita necessidade de escrever. hoje ela me tornou, e quem a sente sabe da urgência de transformar sentido em palavra, quando ela vem. no mais distante, sentei, como faço todas as tardes, na varanda de minha rua para extrair o sentido das lições que o sol, as folhas das árvores e os meus medos têm a me passar. e o dia hoje foi de pensar no infinito e na nossa ausência dentro do tempo.

a morte de um jovem colega, sua finitude com relação ao tempo humano, o fim de seu ciclo nesse universo e sua transição ao estado existencial de ser, enfim, tudo isso me comoveu, encheu meus olhos de tristura líquida, escorreu e absorvi. me comoveu muito. na semana passada, pensava como a morte corre simultaneamente à vida, revisitava os últimos suspiros que já ouvi e os partos tristes das crianças que nunca nasceram. tentava, perdido, definir um propósito – como geralmente faço antes de sair de casa para comprar pão, sabendo eu que preciso comprar pão – para justificar esse passo de ciranda que a gente dança sem perceber.

sem motivo descoberto, apenas a transitoriedade consegui enxergar. gritei na porta de deus, questionei o sadismo de nos fazer solitários vigiados por sua hipotética onipresença, descri. mas acabei o temendo e pedi perdão pela provocação – minha catequese lembrou-me que com deus não é assim que se negocia. desisti. passei a intercalar meu pensamento com música, com distorção de rádio, com latido de cão desconhecido.

é difícil acreditar que não podemos conceber todas as não-escolhas embutidas em nossas escolhas, e que a possibilidade de não-ser é sempre maior do que a de ser. o tempo virtual, projetado para depois do fim, marca a angústia daquilo que nunca virá ao conhecimento. talvez seja essa nossa maior dificuldade diante do tempo: perceber-se finito dentro de um referencial infinito e de nunca poder racionalizar a grandeza da infinidade.

mais uma noite tece o escuro, despedaçado entre as nuvens do céu lhano de campina grande. o cigarro acaba, a água ferve. o disco de caetano já toca gonzaguinha. e não menos que humano emborco meus medos para que não continuem olhando para mim. reconhecer-se vulnerável, frágil, instantâneo. e todo esse sentimento corroendo minha poesia diária, cortando a língua de minha mente, deixado as palavras escassas, rarefeitas, diante do indizível. enquanto que o tempo, sentado no ombro de deus, ri da nossa condição pasma, diante disso que pensamos ter sido e estarmos sendo, todos os tempos, num tempo só.

“eu nunca vi ninguém nascer nesse hospital, caetano. mas morrendo, vi muitos”, disse o médico ao estagiário que vinha se aproximando. e completou: “morrer e nascer constituem um binômio curioso. à primeira vista, podem ser entendidos como pólos opostos da condição humana, mas não o são. basta um pouco mais de atenção para perceber que, na realidade, são medidas diferentes para o mesmo volume – como a água posta em dois continentes diferentes. por mais que pareçam distintos em sua forma, permanece-se exatamente a mesma matéria. o saldo visual entre uma e outra é o que chamamos de vida. isso, peremptoriamente. a vida é a mudança.”

(com e para mariana revoredo)

 vê-de: a vida é ritual.
vide: o rito é vital.
no rio virtual,
vertemos nossa virtuosa verdade.
evitável?
validável?
e agora, rivaldo?
e agora, revoredo?

agora, o rito é virtual
a vida é ritual
o rio pode ser rival(do)
pode ser revolto,
pode ser. mas nunca é.
nunca é verdade.
porque verdade verte.
e esse é um exercício à transcendência.

todos os meus dias atuais têm sido de resgate das emoções envelhecidas, ignoradas, grossas como os cobertores que revestem as camas a essa época do ano. tem feito bastante frio, como não fazia há pelo menos uns seis invernos, naquele inverno que cheguei aqui. e bem próximo àquele sentimento de descoberta, meu sentimento hoje é o de distanciamento, como quem sabe que partirá em breve e a vida nesta cidade continuará. hoje, dei a andar pelas ruas de campina grande, relembrando em mim mesmo, como quem escreve uma prosa mental, as recordações que os lugares, as pessoas, os hábitos daqui me traziam. aquele vinho cor-de-marrom bebido no evento do açude novo, aquele show no severino cabral, quantas vezes peguei este ônibus atravessando a floriano peixoto, o senhorzinho que me vendeu meu primeiro chapéu e os senhores que riem como quem já nascera velho no calçadão da cardoso vieira. e todas as lembranças primeiras se confundiam em minha mente juntamente às lembranças últimas: seria a última vez que estaria uma manhã sentado despreocupadamente vendo os garotos engraxarem os sapatos, os pombos da praça da bandeira serpentiando entre as pernas, a chuva que fina não caía, ficava suspensa no ar, sendo respirada antes de cair no solo? não distante disso, minha percepção findava à conclusão de que demorei a me encontrar na poesia de campina. e quando o fiz já era tarde demais para perceber tudo e mais ainda para voltar atrás. creio que posso dizer até o momento certo do meu nascimento poético nesta cidade: aquela tarde que descia (ou subia?) a presidente joão pessoa, carregando meu primeiro violão, olhando o céu e tentando descrever no meu interior o espaço que ocupava naquele momento. nesta altura do pensamento, já me encontrava com um amigo recente e de carinho paleozoico, perguntar por ele, agradecer sua presença em mim, como se agradecesse aos tantos que fiz nessa cidade e a esta cidade por me proporcionar fazê-los assim. porque tudo parece novo quando se está próximo de findar. tudo parece imenso. e ainda não contente, desci ao açude velho, chorando as águas que tremulavam com a brisa fina e fria, sorrindo as batidas de asas das garças que flutuavam no ar, sem sair do lugar, porém. não me caibo em minhas próprias nostalgias, tento não me comover ao intenso, mas não posso deixar de acreditar que o raios de sol de hoje foram enviados a mim, para que pudesse ver essa coisas como as vi. foi nesta cidade que vivi medos e gozei a dormência mental do descobrimento do que é a vida – “tarefa dura, mas fascinante” como há escrito e referenciado a suassuna, numa placa que vi hoje em frente ao colégio damas.”redescobre-te, rivaldo”, é como se falassem os espíritos indígenas carregados pela chuva que caiu mais tarde, de águas enegrecidas da borborema, esse novo-quilombo-de-zumbi. foi aqui que vi pessoas morrendo e pessoas nascendo. foi aqui que ouvi árvores cantando (como aquele flamboyant vermelho do ccbs, lembra, naquela tarde?), aqui me embriaguei, viciei, trapaciei, entorpeci, aqui fui espera, aqui fui presente, aqui fui cólera e crise também. enfim, aqui os anos se passaram bem mais rápidos que em qualquer outro lugar do universo e o universo explodiu, estendeu, jurou a mim que chegaria bem no final, mesmo que este final nunca haja.