o momento que envelheci
foi um marco em minha vida.
já não era pequenino
nem podia ver de longe.

as poucas estrelas que trazia
seguradas em meu peito
eram tímidas vontades
de um pequeno sonhador.

não havia pretensões
nem tampouco poesia,
mas enquanto eu crescia
o mundo se transformava
em pedaços de promessa.

era como se ao me ver
enrolado em meus desejos
fosse homem antes-fosse
fosse o tempo que passava.
era como se sonhava,
o mundo inteiro a meu favor.

o momento que envelheci
fez de mim um homem sério
hoje já não vejo nenhum
pedregulho de esperança
– antes-fosse homem criança –
em tão pouca desvontade.

percebi que tudo isso
era um grande sacrifício
não queria ter vivido
o momento que envelheci.

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convenci a mim mesmo não querer conquistar o céu.
entremeado de favores,
obedeci àquilo que não temia.
descartei as conveniências
– empinei pipa com cerol ao meio-dia –
e desfiz-me três vezes antes de levantar da cama.

viver é ~ basicamente ~ sobre esquecer
e ser lembrado.

trinta e sete novos geólogos voltavam incrédulos e sem explicação para como que as pedras da colina do desterro amanheciam amontoadas, noite após noite, em formações silenciosas e uniformes, desde a volta do inverno na região. no início eram poucas e passavam despercebidas, mas progressivamente as pequenas coleções de pedras se estenderam por toda a colina, contando-se até então milhares, onde a vista alcançasse num dia de bom sol. os cientistas, para não decepcionar o clamor nacional, asseguravam vagamente que tratava-se de um raro fenômeno metereológico e de difícil previsão. o povo, muito mais sabido, não caía numa conversa dessas e tinha por si se tratar do trabalho de um anjo vago, que reservou sua eternidade para brincar com a razão dos homens.

[…]

quatro e quinze da manhã, dona angelita retorna a sua humilde casa, escondida embaixo da imburana, com as mãos vermelhas de pó de pedra. não aprendeu a contar, mas sabia que naquela noite havia movido com sua fé pelo menos uma montanha antes do amanhecer.

as notícias que hoje eu desenho em minha mente
me fazem ter dúvidas do homem que sou
o que vejo
e como faço as coisas e os dias
passam
passados entreabertos não recorrem
passados mortos, o sono adiado
e o sufoco como coisa humana
a solidão como coisa viva
e a temperança
que acalma as tardes e disfarça
o desespero geral

não é necessário muito além disso
um café
dois capítulos de um livro inacabante
basta.

há quem tanto almeje
se completar em coisas e pessoas,
mas não seriam essas coisas e pessoas
coisas e pessoas a também se completar?

a minha solidão já está conformada
e meu arbítrio vago não passa de um mero pressentimento.
já tenho fomes e vontades e medos.
já sou, mas não sinto completo.

vejo como as pessoas e creio que creio como creem.
danço, apresento-me, faço festa e cortesia.
sorrio como só.
mas só,
o infinito que me ocorre vai além e eu sou pequeno.
não contente, imagino e satisfaço-me.

a promessa do futuro, o amanhã, o ontem, a hora inexistente,
as convenções, o horário certo.
o vazio chega a cortar-me
e se me descubro vítima, parece que padeço.
tenho medo, vergonha e orgulho suficientes para um homem.
mas sinto que preciso de constante afirmação.
se permaneço, sufoco.
se me descubro, humilho.

sempre serei o que sou e o que fui.
e essa é a maior conformação.

(feito para mim, por m. revoredo) 

Se banha no lago alheio e despe sutilmente o outro de si.
Como quem não quer nada, mergulha.
Dá braçadas e, nelas, cartografa silhuetas fluidas.
Assimila o caminho das águas como quem vê o próprio reflexo.
Nele, encontra sereias e serpentes.
Habituado com suas próprias águas, não se assusta com o já conhecido brado do monstro alheio; e encanta.
Canta o cântico mais bonito que conhece; e acalma.
Torna o desconforto provocado no mergulho irrisório.
É, enfim, senhor das águas.
Lidera caminhos.
Povoa espaços abismos.
Torna habitável o lugar nenhum.
Encoraja sereias e monstros a serem sua melhor versão.
Despreocupado em atender exigências, parte.
E deixa o lago muito mais bonito pela sua passagem.
Não seria tão belo se ficasse.
Cartografia que nada, alquimia!
As águas não são as mesmas, nem o lago.
Que vive a ricochetear a memória,
mneme cantada pelas sereias em coro,
Gratas pelo eterno afago.