de todas as vezes que já viajei, e muitas foram as vezes, nessa estrada entre pernambuco e paraíba, rasgando o agreste, subindo à borborema, avistando a campina régia e grande mais ao norte da serra da taquara, eu me abestalho como o céu e as formações nebulosas e solares se desenham únicas e majestosas, limpas, úmidas e claras, sendo emolduradas pela circunferência visual desenhada pela caatinga. hoje mesmo, percorrendo a estrada velha, me perguntava sobre a real existência daquela paisagem, de como ela aparecia sóbria e habitual e ao mesmo tempo questionava minha própria existência e minha necessidade de ver-me ali. olho pra cima. com a respiração sôfrega dos últimos dias de chuvas, um cheiro de mofo molhado e pouca fé, o céu pintava-se, à hora do crepúsculo, com tons de rosa-alaranjado nunca antes vistos pelos meus olhos, espelhando nas montanhas que contornam o planalto uma cor de conforto conhecido, dando adeus e boas-vindas mais uma vez.
não me julguem poeta prolixo. esses dias tô nostalgia só.

a gente acaba por não entender muito bem as circunstâncias que nos fazem crer no que cremos e perceber com mais atenção as coisas que damos nota. hoje lembrei da minha solidão como coisa humana e de minha fé rarefeita, do cheiro de julho que campina exalava em 2011, da dor do silêncio constante e da insegurança que a palavra futuro cobria meus olhos todo dia de manhã. ainda hoje, bem cedo, deitei minha cabeça no sol que nascia trêmulo pela janela do meu quarto, inundava de luz minhas retinas e aquecia as terminações nervosas de minha pele. pensei, nesse instante, como me viria há seis anos se tivesse, naquela época, o dom da premonição. certamente, acordaria atordoado e incrédulo da letargia da visão, renegando-me os atos que eu desenhei em mim nesse tempo, sem poder considerar que conhecer a si mesmo, muitas vezes, é um risco cruel. eu poderia pensar, me vendo como estou, que a vida é previsivelmente mutável, e que nem mesmo a confiança que temos de nossa inexorabilidade está livre desta condição. perderia um tempo enorme tentando me explicar porque admiti ser-me outro tão diferente, mas contentaria, no fim, com o que me foi herdado a cada dia. e, ainda que o sol que me acordou hoje, bem cedo, seja o mesmo do passado, perguntaria a mim, quando a fotografia dos instantes passou a ter outra tonalidade. em que momento preciso as sensações esmaeceram de tal modo que cheguei hoje eu ser daltônico da visão de mundo que tinha, recriando as cores velhas e buscando outras cores, estas mais raras, para que pudesse olhar o novo com mais vigor. tudo isso me pareceu próximo, coeso e necessário, tanto quanto necessário verbalizar-se – ou tentar – por poesia, e estender a compreensão à tangência da palavra. já não me caibo mais nas pretensões do passado, minha solidão parece me compreender, não existe tempo eminente fora de minha própria história e estar-sendo em função disso, parece ainda, a única alternativa.

os dias têm trazido a finitude
como as nuvens carregam os pássaros pequenos
para voar.

tudo tem sido claro,
mesmo sob as árvores densas da rua
que caminha com meus pés
sob os paralelepípedos folhados.

só há um encontro
que justifique a serenidade da força:
encontrar-se com si mesmo
é perceber.
e perceber é a única solução.