no embalo da carreira,
fui do mangue ao domingo
em plena segunda-feira.

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há quem tanto almeje
se completar em coisas e pessoas,
mas não seriam essas coisas e pessoas
coisas e pessoas a também se completar?

a minha solidão já está conformada
e meu arbítrio vago não passa de um mero pressentimento.
já tenho fomes e vontades e medos.
já sou, mas não sinto completo.

vejo como as pessoas e creio que creio como creem.
danço, apresento-me, faço festa e cortesia.
sorrio como só.
mas só,
o infinito que me ocorre vai além e eu sou pequeno.
não contente, imagino e satisfaço-me.

a promessa do futuro, o amanhã, o ontem, a hora inexistente,
as convenções, o horário certo.
o vazio chega a cortar-me
e se me descubro vítima, parece que padeço.
tenho medo, vergonha e orgulho suficientes para um homem.
mas sinto que preciso de constante afirmação.
se permaneço, sufoco.
se me descubro, humilho.

sempre serei o que sou e o que fui.
e essa é a maior conformação.

(feito para mim, por m. revoredo) 

Se banha no lago alheio e despe sutilmente o outro de si.
Como quem não quer nada, mergulha.
Dá braçadas e, nelas, cartografa silhuetas fluidas.
Assimila o caminho das águas como quem vê o próprio reflexo.
Nele, encontra sereias e serpentes.
Habituado com suas próprias águas, não se assusta com o já conhecido brado do monstro alheio; e encanta.
Canta o cântico mais bonito que conhece; e acalma.
Torna o desconforto provocado no mergulho irrisório.
É, enfim, senhor das águas.
Lidera caminhos.
Povoa espaços abismos.
Torna habitável o lugar nenhum.
Encoraja sereias e monstros a serem sua melhor versão.
Despreocupado em atender exigências, parte.
E deixa o lago muito mais bonito pela sua passagem.
Não seria tão belo se ficasse.
Cartografia que nada, alquimia!
As águas não são as mesmas, nem o lago.
Que vive a ricochetear a memória,
mneme cantada pelas sereias em coro,
Gratas pelo eterno afago.

dentro desse meu coração ruído
há uma espécie de liberdade embriagada
frágil solitária
dentro desse meu coração ruído
há pessoas, planos e afazeres domésticos
há coisas e causos
dentro desse meu coração ruído
há uma canção que não se ouve
houve perdas e obstáculos
e um futuro preso no passado
dentro desse meu coração ruído
há uma saída, uma voz
um tom surdo pálido doente
dentro desse meu coração ruído
eu creio que há uma velha esperança
da juventude que queria ver o dia nascer feliz
por um triz
havia eu
dentro desse meu coração ruído.

lembrei-me hoje do dia que passei a ter fixação pelo céu. foi numa tarde, quando via o pôr do sol, por entre as crateras de vertente do lério. lembro-me diante de um céu vermelho como um céu chinês, tão rubro que cheguei a questionar se seria mesmo um céu ou um mar de sangue estendido sobre minha cabeça. grandes vultos de caminhões carregados de pedra cal levantavam poeira. e aquele céu. sangue vivo. não fosse um fato relativamente recente, poderia supor que gonzaguinha tivera composto sangrando para aquele céu. desde então passei a colecionar em minha memória os pores de sol de minha vida e a celebrar, como se vivesse em um planeta pequeno o suficiente, cada por do sol quarenta e três vezes.

há certo tempo não escrevo crônica. e isso por há certo tempo não ter tido mais a velha e insólita necessidade de escrever. hoje ela me tornou, e quem a sente sabe da urgência de transformar sentido em palavra, quando ela vem. no mais distante, sentei, como faço todas as tardes, na varanda de minha rua para extrair o sentido das lições que o sol, as folhas das árvores e os meus medos têm a me passar. e o dia hoje foi de pensar no infinito e na nossa ausência dentro do tempo.

a morte de um jovem colega, sua finitude com relação ao tempo humano, o fim de seu ciclo nesse universo e sua transição ao estado existencial de ser, enfim, tudo isso me comoveu, encheu meus olhos de tristura líquida, escorreu e absorvi. me comoveu muito. na semana passada, pensava como a morte corre simultaneamente à vida, revisitava os últimos suspiros que já ouvi e os partos tristes das crianças que nunca nasceram. tentava, perdido, definir um propósito – como geralmente faço antes de sair de casa para comprar pão, sabendo eu que preciso comprar pão – para justificar esse passo de ciranda que a gente dança sem perceber.

sem motivo descoberto, apenas a transitoriedade consegui enxergar. gritei na porta de deus, questionei o sadismo de nos fazer solitários vigiados por sua hipotética onipresença, descri. mas acabei o temendo e pedi perdão pela provocação – minha catequese lembrou-me que com deus não é assim que se negocia. desisti. passei a intercalar meu pensamento com música, com distorção de rádio, com latido de cão desconhecido.

é difícil acreditar que não podemos conceber todas as não-escolhas embutidas em nossas escolhas, e que a possibilidade de não-ser é sempre maior do que a de ser. o tempo virtual, projetado para depois do fim, marca a angústia daquilo que nunca virá ao conhecimento. talvez seja essa nossa maior dificuldade diante do tempo: perceber-se finito dentro de um referencial infinito e de nunca poder racionalizar a grandeza da infinidade.

mais uma noite tece o escuro, despedaçado entre as nuvens do céu lhano de campina grande. o cigarro acaba, a água ferve. o disco de caetano já toca gonzaguinha. e não menos que humano emborco meus medos para que não continuem olhando para mim. reconhecer-se vulnerável, frágil, instantâneo. e todo esse sentimento corroendo minha poesia diária, cortando a língua de minha mente, deixado as palavras escassas, rarefeitas, diante do indizível. enquanto que o tempo, sentado no ombro de deus, ri da nossa condição pasma, diante disso que pensamos ter sido e estarmos sendo, todos os tempos, num tempo só.

“eu nunca vi ninguém nascer nesse hospital, caetano. mas morrendo, vi muitos”, disse o médico ao estagiário que vinha se aproximando. e completou: “morrer e nascer constituem um binômio curioso. à primeira vista, podem ser entendidos como pólos opostos da condição humana, mas não o são. basta um pouco mais de atenção para perceber que, na realidade, são medidas diferentes para o mesmo volume – como a água posta em dois continentes diferentes. por mais que pareçam distintos em sua forma, permanece-se exatamente a mesma matéria. o saldo visual entre uma e outra é o que chamamos de vida. isso, peremptoriamente. a vida é a mudança.”

(com e para mariana revoredo)

 vê-de: a vida é ritual.
vide: o rito é vital.
no rio virtual,
vertemos nossa virtuosa verdade.
evitável?
validável?
e agora, rivaldo?
e agora, revoredo?

agora, o rito é virtual
a vida é ritual
o rio pode ser rival(do)
pode ser revolto,
pode ser. mas nunca é.
nunca é verdade.
porque verdade verte.
e esse é um exercício à transcendência.