todo dia eu apago
uma quantidade média de e-mails
que nem chego a ler

mais cedo me dei conta
de nunca ter recebido uma carta
que não fosse cobrança
ou propaganda enganosa

todo dia eu apago

invento o cais
intento o caos

e sei a vez
de me enganar

eu já não sei.
tenho olhado o mundo
interpretado as circunstâncias,
aderido aos projetos que passam além daquilo que sou
e tudo aquilo que me faz
faz sentir das coisas
a eterna descoberta do universo.
quem me dera sonhos e vantagens
não sou eu o herdeiro da inconsciência.
os poucos propósitos que me restam
me fazem enxergar e ver
que nada disso é tão real
como a chuva que cai leve e soberana
nos paralelepípedos de minha rua.
queria sim que tudo fosse tão fácil
queria que tudo fosse tão perfeito como essas individualidades são.
queria convencer-me o erro
e aceitar, no entanto
os dias de minha indecisão.
sou pequeno perdido
entre tantos desertos e almejos
sou discreto alarido entre diversos anseios.
singela ave, que habita o receio da dor real
desperta em meu peito tua inconsistência
pois sou apenas a margem,
a abóboda
o que não consegue e está além.
sou o precipício,
a pedra que solta
a flor e o imaginário.
sou o medo da correnteza.
sou a força que se indecide.
sou nada. tampouco nada.
mas talvez, caso caiba a dissolução do que concentro
sou o espaço,
a fúria, o som e o desaconchego.
aquilo que passa devagar,
vai e some
como gota d’água ao sol.

prefiro as pessoas em estado-água,
estado-líquido,
estado-fluido.
pessoas estado-pântano,
estado-musgo e estado-seiva,
estado-sangue.

pessoas-líquidas umedecem olhos facilmente,
pessoas-líquidas suam,
transpiram,
exalam.
pessoas-líquidas molham.

prefiro pessoas em estado de liquidificação.
que derretem,
pessoas que encharcam.

pessoa-líquida é pessoa boa,
é pessoa real,
é pessoa viva.
pessoa-líquida é pessoa-verdade,
é pessoa-presente,
é pessoa que não mente,
é pessoa-céu.

sinto angústia ao conversar com alguém que só pensa em algarismo. sinto uma comoção enorme em tentar compreender o sentido quando alguém apenas entende financeiramente o mundo. geralmente, percebo que nesse raciocínio há a dificuldade de elaborar sobre conceitos muito básicos, porém ao mesmo tempo bastante distintos, como preço e valor.

eu gosto mesmo é de gente que pensa por poesia. que tá nem aí pra matemática do mundo, fecha os olhos e compreende o sentido daquilo que diz. mais ainda daquela gente que, num átimo de inspiração, consegue nem pensar, e é capaz de decompor seu pensamento como fruta seca sobre o chão da razão e acessar a linguagem mais primitiva do ser humano. gente assim é que sabe das coisas.

américa latina
ponto de ebulição
bucólica retina
em brasa e carvão

vértebra andina
curvada ao brasão
da planície platina
ao penhasco sertão

assim, faz-se a sina
e em cada esquina
nasce uma revolução

pois ave de rapina
não se desanima
com a presa no chão.

quer conversar… sei lá?
obrigado pela preocupação
cansado

tive a mesma impressão
eu fico evitando as frases clichês
a gente é bem parecido

nunca diga nunca
porém eu digo nunca

daqui uns dias
lugar pra lá de lindo
mimoso
uma granja
serra redonda
tudo verdinho
parar de se preocupar com o caos do mundo
um jardim enorme
andar descalço e sem cueca
meus dois pugs
fumar sem medo do câncer
mostra a eu
amar sem medo do ciúme
coisas esverdeadas

o poema está aqui

foi o mesmo sentimento
viver sem medo
de fazer
sem expectativa.